segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Romance Literário

Então, lá estava ele, diante da sessão de psicologia. Todos aqueles livros lhes saltando aos olhos. Aquele era o dia de chegar novos títulos, alguns que ele aguardava há semanas. Os mesmos livros que em um lapso de luz tornavam-se fundo, para que ele pudesse observar aquele ser onírico que tanto lhe despertou atenção. Magra, rabo de cavalo, tênis all star e calça jeans colada às coxas, que moldava seu corpo quadril abaixo. Alguns segundos foram o bastante para tirar dele toda a atenção e ansiedade que o fizeram ir a livraria conferir aqueles títulos que iam desde seu antigo inspirador Freud a o mais recente inspirador Calligaris.  Tampouco folheou uma página ou outra capaz, foi, de deixar de lado toda a análise, os complexos, as mnimisências e sintomas por ele estudados.
Tudo tornou-se desnecessário quando naquela figura que agora contemplava, o rapaz era capaz de encontrar a resposta para todas suas perguntas, consolo  e aquela paz a tempos fugitiva. Pensou em cumprimentá-la, perguntar-lhe o nome, olhar dentro de seus olhos, contemplar um detalhe ou outro de sua face. Conhecer sua face. Pois até então, todo aquele objeto de desejo e gozo era observado apensar pelas costas. Foi quando um senhor, de quarenta e poucos anos, muito bem trajado, barba feita e relógio de outro em um dos braços disse, com sua voz rouca: moça, por favor, consulte esse título pra mim. Pois não senhor, respondeu com a mais suave das vozes por ele ouvida, aquele ser angelical.
A moça em questão estava em seu ambiente de trabalho. Junto de toda a vestimenta antes descrita, agora perceptível a ele, tinha um avental que possuía uma estampa tão cafona quanto grande na altura do peitoral “Livraria O Recanto do Poeta”. Era naquela livraria que ele ia desde os dezessete anos, que foi quando despertou para o mundo da literatura. Foi evoluindo paulatinamente, em seus gêneros e obras. Começou por ler best-sellers. O primeiro foi um sobre uma dupla de amigos que se passava hora em Cabul, hora na Califórnia. Algum tempo depois pulou para a prateleira das poesias, onde conheceu Manuel Bandeira e seu tocante poema sobre um pardalzinho.
De lá para cá leu uma obra ou outra, entre romances e poesia. Conheceu Gabo, Rollo e Dostoiekvsi. Saiu do colégio, entrou na faculdade, pulou de um curso a outro até se fixar  na psicologia. Deparou-se com uma paixão ou outra, todas com fim prévio. Sentiu-se, novamente, em casa e hoje lá estava ele, naquela livraria, por onde passava enquanto tudo isso acontecia. E a vivacidade e ansiedade contidas nessas vivências foram tão grandes que durante todo esse tempo passou por despercebido a ele aquela garota tão bela, da qual não conhece sequer a face. Tirando os livros, a única pessoa com a qual ele fazia questão de trocar informações era o Senhor Gabriel, dono da livraria. Um velhinho inteligente e sorridente. Tinha, ele, um grande carinho pelo garoto. Em seu aniversário de dezoito anos deu-lhe Memórias de minhas putas tristes, que fala sobra a aventura de um velho de noventa anos que se apaixona por uma prostituta virgem com menos de duas décadas de vivência. E junto com a paixão pela garota vem toda uma reflexão sobre o que ele fez, sentiu ou deixou de sentir até então.
Agora, sua atenção não estavam voltadas para os livros, tampouco para o senhor Gabriel. Só tinha olhos, ele, para a moça que nesse dado momento distancia-se, rumo a sessão de livros de auto-ajuda.
Bem que ele suspeitou que aquele homem andava muito dentro dos conformes, muito bem trajado, muito alinhado e organizado em seu espaço físico externo. Contudo, ao observar seu semblante, percebeu que algo estava fora dos conformes. Como lidar com a auto-sabotagem era o título do livro que o homem gostaria de consultar. Em seu interior sentiu vontade de avisá-lo o quanto aqueles livros de auto-ajuda são tolos, que não induzem a pessoa ao auto-conhecimento e sim a seguir um padrão comportamental pré-estabelecido por um psicólogo, psiquiatra ou mesmo alguém do senso comum desocupado que decidiu escrever um livro de auto-ajuda para se auto-afirmar. “Olha, você pode ser feliz”. Essa frase é repetida por esses autores para as pessoas quando na verdade, eles querem convencer a si mesmos que é possível ser feliz.
Então, o homem compra o livro, agradece a ajuda da moça e vai-se embora. A moça, contudo, não volta para onde estava. Vai organizar um livro ou outro da prateleira de filosofia, aliás, das prateleiras, pois a filosofia e a psicologia e a religião possuíam mais prateleiras que as outras áreas de saber. “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”, pensou o jovem rapaz ansiosamente. Olhou para um lado e outro, deu um assovio falho, pois tinha goma de mascar na boca, balançou um braço, em seguida o outro e pôs-se a caminhar às prateleira que tinha os livros de Platão. Você gosta de algum destes, perguntou-a quase gaguejando e suando frio. Ela deu-lhe um sorriso, passou uns segundos calada, folheou um livro. “Penso, logo existo”, falou-lhe. Então, um tanto surpreso, pois pensava que receberia um não tão seco quanto frio, dirigiu-se à prateleira que tinha as obras de René Descartes. Então, o que mais? Ah! Eu cansei de devanear sobre a filosofia, já me questionei muito, duvidei muito, quebrei muitos conceitos que tinha desde a infância. O conhecimento pode ser algo danoso, disse-lhe a moça.
Ficaram alguns segundos calados, segundos que pareciam horas, até que a moça caminhasse à prateleira dos romances. Deparado com o silêncio e a falta do que falar, perguntou-lhe. E dessa prateleira, de que títulos você gosta? Diga-me você um, respondeu-lhe a moça. Eu? Faz um tempo que não leio romances, pelo menos não os romances românticos. Eu me sinto um romântico por excelência, mas é como se eu tivesse desaprendido um pouco como usar o romantismo. Como assim, você desaprendeu a ser romântico, perguntou-lhe a moça com um tanto de espanto e outro de tristeza ao ouvir tal frase. Não sei. Acho que é a falta de um grande amor, uma grande paixão, respondeu-lhe. Pois eu não vivo um amor há alguns anos e mesmo assim nunca perdi minha visão romântica sobre a vida. Eu acredito que a pessoa certa vai aparecer. Pode ser ela uma pessoa que eu observo a tempos nessa livraria, sempre imaginei que fosse um romântico assumido. Então, pode ser que um dia ele chegue a mim e fale uma frase que mude minha vida.
Como era cliente da livraria há anos e era um romântico,  pode-se dizer um romântico não praticamente, pelo momento que vivia, o jovem rapaz pensou que  as palavras da moça seriam um galanteio a ele. Ficou um tanto sem graça, observou-a, ela parecia procurar um livro dentre as pilhas e pilhas que tinha para organizar até as 18 horas, que era o horário que deixava a livraria. Essa pessoa romântica da qual você fala seria eu, perguntou-lhe apreensivo.
A moça deu um sorriso de canto de boca, catou em suas mãos um livro, um de seus preferidos, um dos quais gerou nela uma mudança e a fez enxergar o amor, os relacionamentos e a vida de uma maneira mais romântica. Pegou, carinhosamente, o livro, deu às mãos do rapaz e saiu apressadamente. Dentro do livro havia um bilhete: “a paixão, assim como o amor, é um sentimento divino que só pode ser sentido pelas mais românticas das criaturas. Leia este livro e volte aqui, tire-me para um café e responda você mesmo suas perguntas a mim dirigidas. ps: não demore.”

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Relembranças

- Não chore minha querida. Nós ainda vamos nos encontrar e viver pelo resto de nossas vidas esse nosso amor. Se nós nos amamos, não há distância que nos separe.
- Isso é muito bonito, mas não serve para a vida real. Você vai embora, eu vou ficar aqui. Nós não vamos mais saber nada um do outro.
- Se cada vez que você lembrar-se de mim e eu de você, e escorrer uma lágrima de nossos rostos pela saudade, é por que nós ainda estamos juntos, mesmo longe, nós ainda estaremos juntos.
- Isso é bobagem. O tempo há de dilacerar nossos corações e nossas lembranças.
- O verdadeiro amor permanecerá, até ficarmos juntos novamente.
Dando-lhe um beijo na testa ele partiu sem olhar para trás, para não tornar aquela despedida mais difícil ainda. Ela ficou a olhar-lhe, vendo apenas seus passos e seu corpo cada vez mais distante. Não pôde ver o quanto ele chorava e se lamentava de tal fardo que teria de carregar ao abandonar sua amada. O parque no qual se passava a cena era o lugar deles, onde eles passaram seus melhores e piores momentos juntos, os de paixão e raiva, amor e desilusão.
Sua família estava de mudança para um estado ou dois de distância. Ambos acabaram de concluir o ensino médio e tinham planos de fazer faculdade juntos, mas o futuro deles agora era outro. Teriam de se separar e deixar para trás os planos que fizeram juntos. Ela ficara, começara a faculdade lá mesmo, onde sempre morou e ele foi-se embora com sua família, contra sua vontade, porém com a consciência de que isso tinha de ser feito.
Durante anos eles afundaram-se nos estudos, não saíram muito de casa. Era como se tivessem prometido um para o outro continuar sozinhos de onde eles tinham parado. Ambos formaram-se jovens e tornaram-se, rapidamente, respeitados em suas áreas de trabalho. Cerca de doze anos depois o rapaz, agora homem formado viajara de volta à sua cidade, a convite do governo, que queria sua ajuda profissional. Ele saiu de casa, despediu-se de todos. Sua família agora não era mais formada por seus pais e irmãos. Dirigiu-se ao aeroporto e deu início a sua viagem. No avião lembrava com doçura de sua juventude e de sua paixão vivida com a moça.
Ao desembarcar no aeroporto ainda era muito cedo parar dirigir-se ao local da reunião. Decidiu ir ao parque, na hora em que eles costumavam se encontrar. Às cinco da tarde, para ver o pôr do sol. Ao chegar ao parque ele tirou o paletó, sentou-se em um dos bancos e ficou a pensar na vida. De longe avistou uma mulher de idade semelhante à sua, bonita e sorridente. Pensou ser sua amada, mas, segundos depois, viu uma criança correndo para os braços da mulher abraçando-a. Um pouco depois sentiu sua visão escurecer. Alguém punha as mãos em seus olhos, a princípio pensou que fosse assalto, mas depois percebeu que aquelas mão eram mais de anjo que de marginal.
- Adivinha quem é. Falou uma voz delicada.
- Até tenho um palpite, mas tenho medo de quebrar a cara.
- Você continua o mesmo. Com medo de arriscar.
- É realmente quem eu imaginava.
Os dois viraram-se ao encontro um do outro. Sorriram, ficaram olhando detalhadamente durante segundos um para o outro tentando observar todas as mudanças trazidas pelo tempo. Mas não conseguiram ver mudança nenhuma, a não ser a idade. Os rostos não eram exatamente os mesmos, mas tinham a mesma doçura de anos atrás, os olhos não eram os mesmos, mas tinham a mesma paixão de anos atrás.
- Como você está querida? Está feliz?
- Tenho tentado. A minha vida está muito boa. E você?
- Também. Não tenho muito do que reclamar.
Conversaram durante alguns minutos, abraçaram-se como amigos, beijaram-se com carinho. Mas pela paixão trazida com aquele reencontro era inevitável o desejo de ambos. Beijaram-se ardentemente. Então, lembraram-se de um local no parque onde ninguém jamais ia. Que só eles dois conheciam e passavam lá a maior parte do tempo juntos. Correram para o tal lugar. Amaram-se o resto da tarde até o cair da noite. Depois de ótimos momentos pararam um pouco para conversarem sobre suas vidas.
- Então, conte-me, o que você tem feito da vida?
-Eu sou engenheiro. Sabe aquele novo estádio de futebol, que está sendo mostrado em todos os telejornais?Eu o projetei.
- Meus parabéns. Eu nunca duvidei da sua paixão pela engenharia.
- E você, o que tem feito?
- Virei advogada. Sabe o caso daquele terrorista, que todos pensavam que não teria penitência, mas ele foi condenado à cadeira elétrica? Eu era a advogada do caso.
- Parabéns. Eu nunca duvidei da sua competência.
Ambos estavam felizes ao ver que os sonhos que eles haviam planejado juntos haviam se tornado realidade, mesmo eles não estando juntos durante aqueles anos. Mas havia uma pergunta que eles queriam fazem um ao outro, mas um nó em suas gargantas os impediram. Foi quando ele olhou para a mão esquerda dela e falou assustado e com um semblante triste.
- E essa aliança? Casou-se?
Ela pôs em sua face, também, um semblante de tristeza.
- Sim, casei.
- Tem filhos?
- Tenho. Dois.
- Os filhos são realmente uma dádiva. E seu marido, você o ama?
- Ele é uma ótima pessoa. Muito esforçado e dedicado à família.
- Que ótimo.
-Eu também vejo em sua mão uma aliança. Quem é a sortuda?
- Antiga colega de faculdade. Ela também é uma pessoa e tanto.
- Você a ama?
- Ela é uma ótima pessoa e uma grande companheira.
- Vocês têm filhos?
- Sim. Dois também.
Eles ficaram por instantes olhando para um lado e outro, sem saber o que dizer. Até que no mesmo momento ambos disseram.
- Você o ama?
- Você a ama?
Isso tornou a situação mais difícil ainda de lidar. Enquanto se recompunham eles pensavam em todos os momentos vividos, inclusive naquele dia. Ela olhou para ele chorando e falou.
- Você disse que se nós nos amassemos ainda íamos nos encontrar. Ficaríamos juntos.
- E nós nos encontramos, nós passamos o dia mais feliz de nossas vidas hoje, nesse parque, que sempre foi nosso lugar. Disse ele, também chorando.
- E agora, o que a gente faz? Como a gente fica? E a nossa felicidade?
- Agora nós vamos ter de voltar às nossas vidas normais, para as pessoas que nos amam, que não podem viver sem nossa presença. Voltar à vida real.
-Mas eu te amo e sei que você também me ama.
- Claro querida. Nós nos amamos muito. Você é a mulher da minha vida.
- E então? O que faremos?
- Vamos embora. Voltemos a nossas vidas. Se nós realmente nos amarmos vamos ficar juntos no futuro. Encontraremo-nos novamente, assim como hoje.
 Dando-lhe um beijo na testa ele partiu. E mais uma vez ela chorou vendo apenas os passos e o corpo de seu amado cada vez mais distante. Não pôde ver o quanto ele também chorava e sentia o quanto era difícil deixar, mais uma vez, o amor da sua vida para trás.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Correspondência virtual

Então, já depois da meia noite, para quebrar um tanto da rotina e outro tanto do gelo contido em seus corações, eles decidem fazer de seus e-mails suas caixas de correio.
Sobre o que seria o amor, ou algo muito além disso saíram as seguintes falas, no caso, as seguintes escritas.


"eu quero muito um amor simples, um homem que me encante, simples, com quem eu possa conversar sobre livros, sobre a vida, sobre o pouco de música que eu sei. companheirismo, sabe?"
       
Naira Mariane Gondim



"Essa história de os opostos se atraem é furada. A gente tem que procurar alguém parecido com a gente. Daí você atribui valor às mesmas coisas que a pessoa que tá ao seu lado e tudo é mais compatível."
Iury Pereira Araujo


                                                                                    

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Um bem menos poeta

Os homens são lentos
Tão lentos que demoram a perceber
Quando a mulher que deseja
Também o deseja
Com mesmo pudor e paixão
Ao invés de correr e trancá-las em seus braços

Ficam a sofrer
E lamentar o fardo carregado
De não ter ao lado a mulher que sonha
A mulher que deseja
A mulher que está bem ao seu lado desejando o mesmo
Desejando que ele perceba o quanto seus olhos brilham ao encontrá-lo

E o quanto aquele café prolongou-se não, simplesmente, por que ela não queria ir embora
Mas por que queria, ela, ficar um bocado mais em sua companhia
Também não percebe o quanto ela faz questão de esnobar outrem
Que possa cruzar seus caminhos
Deixando logo a desesperança e a solidão a um terceiro
E o tolo, o que vê?

Sua bela amada cobiçada não só por ele
Mas por outros cavalheiros
E traz para si o fardo de não poder possuí-la
Pois é, ele, apenas mais um sonhador
Que sonha com a mulher perfeita
A mulher que está tão perto e ao mesmo tempo tão longe

E assim ela cansa
Cansa de esperar
Cansa de dar sinais
Cansa de jogar seu charme
Cansa de ser engraçada durante dias
E de tentar agradá-lo, por mais que ele não perceba

E o tolo homem?
Cansa de ser tolo
E põem-se a declaram-se a mulher amada
Põe-se a fazer juras de amor
Põe-se a falar daquele amor há tanto reprimido
Posto para fora com um vagão ou outro de atraso

A bela mulher
Sem nada mais poder fazer
Explica-lhe tudo
O quanto aguardou esse galanteio
E o quanto pode ter sido melhor
Que ele tenha ocorrido tardiamente

Pois em sua memória e em seu peito
Já existe outro cavalheiro
Um bem menos tardio
Um bem menos atrasado
Um bem menos pateta
Um bem menos poeta

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Observação: Sim, não existe lá muita concordância entre singular e plural entre um estrofe e outro. Contudo, essa foi a melhor forma na qual a poesia se anunciou.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Portão de embarque


- Nossa história jamais daria certo. Histórias como a nossa só dão certo naqueles filmes hollywoodianos, que fazem as pessoas pensarem que ainda vale a pena acreditar no amor e nessa história toda.
- É bem verdade. Nosso romance jamais daria certo. Nós moramos distante.
- Além disso, temos planos adversos. Não adianta. Não daria certo.
- Isso mesmo. O futuro não há de ser nosso aliado.
- É. Por mais que nós esperemos um ao outro, sempre haverá um contratempo. 
- Sabe! Eu até que gosto dos filmes norte-americanos.
- Eu também. É esse o problema.
- Então, você aceita namorar comigo?
- Claro que eu aceito, seu bobinho. Se não for você, quem há de ser?
Eles beijaram-se apressadamente e deram um forte abraço. Na troca de olhares não havia um adeus, mas no até logo. Ela embarcou no trem, ele acompanhou seu vagão com os olhos e só virou-se para ir embora quando não mais sentiu o tremor dos trilhos a seus pés.

sábado, 20 de agosto de 2011

Até outrora

-Até outrora...
Até outrora! Isso era o melhor que ele podia dizer-lhe. Moço bem parecido, de boa família, bela barba e roupa alinhada, metido a poeta e letrista. Quando sua bela amiga diz que vai-se embora esse é o melhor que ele a oferece.
- Até outrora.
Parece até um escritor aposentado, colunista de um jornal qualquer, que recebe o dobro do aposento pra escrever um conto semanal sobre um casal bobo de namorados que cismam em se reapaixonar semanalmente, só para deixar o cunhado de leitores daquele jornal mais felizes.
Agora imaginem o tal escritor indo a padaria, comprando uma dúzia de ovos e oito pães carioquinha. O dono da padaria lhe dá um até logo e o velho responde:
-Até outrora.
Uma resposta seca, como quem diz: É! Tanto faz. E foi essa mesma expressão usada pelo jovem rapaz a sua encantadora amiga.
-Até outrora.
Quão bobão e imaturo é. Não faz jus a sua barba nem a sua roupa de linho. Faltou-lhe sensibilidade. Ele que tanto gosta de escrever sobre romance.
Talvez seu futuro seja o mesmo do velho escritor que vai a padaria todos os dias e escreve semanalmente naquele jornalzinho de pouca publicação e de pouca arrecadação publicitária.
Já até o imagino daqui a alguns anos na mesma padaria, com o mesmo saco de pão, dirigindo-se ao filho, neto, sobrinho, ou sei lá o que do atual dono da padaria, dando-lhe a mesma saudação.
-Até outrora.
E por fim, assim viverão a mesma vida. O velho escritor e o jovem poetinha romântico e insensível com as amigas.
Mas, ora bolas, já me estendi demais com essa história falando sobre escritores frustrados e gagás. Com todo o respeito, sem um fim prévio, cá oficializo o desfecho do meu discurso e de vocês me despeço.
-Até outrora.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Capitu


Observando um palmo a frente via a paisagem trêmula. Daquelas que só se pode ver no deserto, ou à beira de um fogão aceso em sua mais alta temperatura.
- Que calor insuportável.
-Até a água do chuveiro pegou essa mania de ficar quente. Não se pode tomar um banho, parece até que a água está sendo derramada de uma caldeira.
Bentinho e Capitu moravam juntos há apenas alguns meses, por obrigação do destino. Capitu havia sido expulsa de casa, quando seus pais souberam de sua gestação. Já Bentinho não suportava mais conviver com seu agora superior, hierarquicamente, José Dias.  Desde a morte do pai de Bentinho, José Dias assumira o posto de homem da casa. Encarregado de dar ordens aos criados e carícias a D. Glória, recém enviuvada. O defunto, certamente, se debate dentro do caixão. Afinal, não esperava tal oportunismo vindo de José Dias, pelo menos não tão rápido. O corpo sequer esfriara. Mal fazia três meses que o defunto havia deixado seu posto em aberto. O falecido era um homem de bom coração, pois havia tirado José Dias das ruas, onde vivia como charlatão, vendedor ambulante. Deu-lhe casa, comida, bons trajes e um ofício digno. Agora, logo após sua morte ele tornara-se novamente um oportunista. Era demais. Coitada de D. Glória.  Foi demais para Bentinho.
Juntaram-se os dois, Bentinho e Capitu, alugaram um apartamento bem pequeno, de cômodos poucos e curtos.  Passaram, então, a morar juntos.
- Minha querida, nossas vidas irão melhorar.
- É bom mesmo que melhorem. Afinal, carrego nosso filho em meu útero.
- Nosso?
- Sim, nosso. Tens dúvidas?
Bentinho aquietou-se com o questionamento. Capitu deu de costas e foi preparar o jantar.
Cosme, tio de Bentinho, homem de caráter e grande coração, era quem estava ajudando os dois no início de suas vidas de marido e mulher. Mandava-lhes o dinheiro do aluguel e dava-lhes, sempre, o que comer. Isso, claro, escondido de Glória. Na cabeça dela Bentinho estava só querendo chamar atenção e, mais cedo ou mais tarde ele havia de retornar para debaixo de sua asa. Ela sentia muita falta de seu filho. Era ele que a acompanhava no culto evangélico, que, certa temporada, chegou de ocorrer dia sim outro não. D. Gloria havia tornado-se evangélica desde a morte de seu marido. Agora passeava dando paz do Senhor aos quatro cantos da cidade. Tal qual seu vizinho, pai de Capitu. O ex-funcionário público Pádua, que não cansava de tirar seu chapéu da cabeça, sempre a cumprimentar os outros. Pádua possuía um grande apresso por passados, de todos os tipos e tamanhos. Depois que expulsou Capitu de casa fez do quarto da moça um belo viveiro, onde pôs alguns pássaros que havia comprado ilegalmente. Tenho lá minhas dúvidas se Pádua expulsou sua própria filha de casa pela desonra de sua gravidez ou por pura vaidade e falta de espaço para seus pássaros.
Logo que foi dispensado de seu emprego público Pádua arrumou uma forma bem mais fácil de arrumar dinheiro. As brigas de galo estavam em alta na cidade. Seu quintal era muito grande e já não tinha nenhum tipo de planta ou animal, que, futuramente poderiam servir à ceia. E como os galos também são aves não precisou fugir do seu hobby primordial. Montou uma arena e passou a promover brigas de galo. Sua mulher não concordava muito com a atitude de seu marido. Achou desumana. Mas galo não é gente e as atividades estavam lhe proporcionando capital para comprar jóias e sapatos novos. Concordou, então, sem mais balbuciar uma só palavra de desagrado, com aquela atividade que seu marido agora chamava de ofício.
Passavam-se alguns dias e Bentinho estava preocupado. Procurando emprego, olhando os classificados. Foi quando recebeu uma ligação de seu tio.
- Olá Tio Cosme.
- Bento, meu filho. Sua mãe está a sua procura. Acreditas, tu, que o louco do José Dias a fez jogar no jogo do bicho?
- Aquele safado fez isso? Eu vou fazer jus a meu pai. Irei agora mesmo a minha casa conversar com ele, homem a homem. Minha mãe, mulher tão devota. Sempre me ensinou que jogo é coisa do capeta. Que não se deve jogar. Esse dinheiro todo é sujo.
- Meu filho, pare de falar asneiras. Sua mãe ganhou. Está rica, muito rica.
- Mas isso é verdade? Até mais ver tio. Tenho que me vestir. Irei visitar minha querida mãe e meu enteado.
Capitu não entendeu nada da conversa, e ficou sem entender até que Bentinho retornasse. Ele chegou desconfiado, com um pacote entre o braço e a axila, trajava um terno totalmente azul escuro, sapatos sociais e uma gravata. Ao ver Bento nesses trajes passou a entender menos ainda o que estava acontecendo. Pensou que Bentinho havia encontrado uma mulher mais velha, que o sustentasse. Que havia retornado à casa só para fazer chacota com aquela que se intitulava sua amada.
- Fale homem. O que aconteceu?
-Querida Capitu, estamos feitos na vida.
- Como assim? Fale logo.
- Mamãe ficou rica, fez uma aposta e ganhou.
- Mas sua mãe não é contra apostas? Ela não acha isso errado?
- Sim. Porém, junto de sua aposta ela fez uma promessa.
- Que diabo de promessa? Que embrulho é esse?
Bentinho riu, olhou-se no espelho, admirando sua nova vestimenta. Deu um breve sorriso, levantando a mão dizendo... paz do Senhor irmão. Capitu estava mais confusa ainda. Bentinho, ao ver a aflição de sua amada pôs-se a falar.
- Minha querida, este embrulho é uma bíblia. Minha mãe fez a promessa de que se ganhasse na aposta eu, seu único filho, teria a vida voltada à igreja.
Continuou a sorrir.
-Beata! Carola! Papa-missas!
-Calma. A idéia é de muito bom grado. Minha mãe agora é evangélica. Portanto, serei eu pastor. Por isso tais vestimentas. E os pastores têm esposas. Não precisaremos deixar de viver juntos.
- Eu ainda acho isso loucura.
-Quão ingênua és tu, pequena Capitu. Você não se informa das notícias? Ser pastor hoje em dia é um ótimo negócio. Nós podemos comprar algumas mansões e ter nossa própria emissora de televisão. 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Poeminho ao amor próprio

Sabe, amor
Tu tens me confundido tanto
Na forma de outras pessoas
Acho até que tu nunca anunciou-se
Tudo tem sido devaneio
Coisa dessa minha cabeça maluca

Meu querido, esteja sempre comigo
Pois amando ou não outras pessoas
Quero amar, por partida, a mim mesmo
Pois eu sempre estarei comigo
Diferente das demais pessoas da vida
Que passam e vão embora

Deixam cá um bocado de si
Levam consigo um bocado de mim
Amor, pra ser sincero contigo
Queria eu esquecer alguns bocados
Certas pessoas recebem de outras um quinhão desmerecido
Emolduram-se, fazem ofertas e propostas traiçoeiras

Então, caro amor
Termino esse poeminho
Querendo ficar feliz aqui pelo meu cantinho
Quero amores fora o meu
De amigos, garotas, pessoas, mas que não acabe com o badalar do relógio
Enquanto isso qu’eu faça da vida um poeminho ao amor próprio

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O cupido fúnebre

Aqui, em sua cidade, existe algo que proíba primos de terem relações? Pois eu só penso em beijá-la, em transar com ela, falava ele junto ao túmulo de seu tio. Era ele, um homem já não mais tão jovem, que tinha, porém, o charme de um jovem francês que o inundava. Mas ao invés da combinação clichê de boina e bigodinho, ele era detentor de óculos de graus e barba por fazer.
Encontravam-se ambos na antiga fazenda de seu tio. Sim, ambos. Era ele e sua prima, sua pretendida prima. Aliás, nenhum documento comprovava que ela era realmente sua prima, que ela era sequer da sua família. O que fazia com que ele se perguntasse de onde aquela mulher havia surgido. Por que aparecera somente agora, com o falecimento de seu pai. E sua mãe, quem seria? Por mais que essas perguntas não tivessem respostas prévias, de uma coisa ele sabia, se for ela uma impostora, uma usurpadora, a fim, apenas de pôr as mãos nos bens de seu tio, melhor ainda, pois, assim, não haveria parentesco algum que fizesse dormir inquietamente, sem saber se era correto ou não dormir ao lado daquela mulher, que tanto lhe tira o fôlego, que lhe faz pensar em uma só pessoa durante todo o dia. Quando não está pensando nela está pensando no tio, e no que ele diria sobre isso tudo.
Como bom galanteador que o falecido era, podia ele dizer, não perca tempo homem. Só você e ela nessa fazenda, saiba que eu nunca passei uma noite de solidão, ela está sentada na cama, fingindo ler algum livro, esperando você bater a porta e convidá-la para um drink, para uma conversa, para uma noite juntos. Como homem vivido e maduro seu tio também poderia responder, você não me respeita rapaz? Tantas mulheres por aí, por essa cidade, maluquinhas para cair em tentação com você, e você deseja logo sua prima, minha filha. Ele encontrara-se dividido, por suposições extremamente contrárias. Uma de gozo, outra de seriedade. Pelo sim, pelo não, preferiu parar de pensar nisso tudo. Afinal, o velho já não estava mais vivo. Havia batido as botas e nunca mais saberia qual a sensação de sentir-se seduzido. Mas quando chegou a essa conclusão já era tarde. Provavelmente sua suposta prima já havia fechado o livro, apagado a luz da cabeceira, vestido alguma roupa mais leve e entraria em mais uma noite de sono, sem que a tão esperada visita tivesse sido realizada. Pode ser também que ela esteja realmente lendo algum livro que a prende até horas da noite em um romance, ou em alguma aventura policial. Ela pode já estar com bobs nos cabelos, creme no rosto e vestida com uma camisola que mais parecera ser de sua avó. Uma cena na qual, aparentemente, ela não estava realmente esperando tal visita inesperada.
Pela manhã separou dois cavalos do celeiro. Em um pôr uma sela velha, a qual usava quando criança, quando visitava a fazenda do tio, antes de virar um homem de negócios. No outro cavalo pôr uma sela nova e acolchoada. Esperou-a, ansiosamente, descer de seu quarto, para convidá-la a um passeio. Depois de uma hora de espera viu que o dia já estava ficando quente e não tão propicio a um passeio a cavalo. Perguntou a um dos funcionários da fazendo onde ela se encontrava. O jovem rapaz respondeu-lhe que ela havia saído de casa cedo, junto da cozinheira da casa, para fazer as compras da semana. O almoço daquele dia estava por sua conta. Com a informação ele pôs em sua mente que devia, na hora da refeição, elogiar a comida.
Passou pelas plantações, pelo galinheiro e pelo açude da fazenda. Lembrou de todos seus momentos vividos ali, em sua infância, recordou de onde haviam surgido algumas de suas cicatrizes, das quais já havia esquecido a origem, e pensou seriamente em nunca mais voltar para a cidade. Nunca mais ter de fechar negócios milionários e passar finais de semanas trabalhando. Pensou, também, em ir à missa ao domingo. Já que estava na fazenda por tempo indeterminado e que o desejo de por ali ficar era realmente sedutor.
Quando retornou a casa viu, finalmente, sua prima, enteada, namorada, futura esposa, sabe-se lá o que é dele essa mulher. Só sei que ele estava perdido, perdido de amores. Perguntou-a como havia sido o dia. Ora, mas o dia mal começou você já quer saber como ele foi. Apesar da resposta abusada ela conseguiu falar essas palavras com uma ternura jamais vista por ele, pôs na boca ainda, ao final da fala, um leve sorriso, seguido de uma piscadela.
No almoço perguntou a moça de onde ela vinha o que fazia e como sua mãe conhecera seu tio. Ela dizia ser do estado vizinho, era corretora de imóveis e que sua mãe havia sido uma paixão na vida do agora defunto, e que antes de morrer seu pai não havia ficado sabendo de sua existência, nem ela da existência dele. Completou dizendo que só responderia mais alguma de suas perguntas na presença de seu advogado, tentou ficar séria, mas pôs-se a rir. Ele entendeu a piada, entretanto, ficou desconfiado, calando-se, assim, durante o restante do almoço. Não teve coragem nem de elogiar o a refeição.
Ao entardecer os dois estavam na varanda da casa. Era um momento único, que não havia ocorrido antes, desde o dia anterior, que foi quando ela chegou. Até quando você pretende ficar, perguntou-lhe. Até amanhã, respondeu ela observando o sol se escondendo e o céu, que possuía uma mistura de cores, ora vermelho, ora dourado, e o que era mais encantador ainda, ora ambas as cores. Catou uma rosa, pegou em suas mãos, colocou-a em uma delas e na outra deu um beijo úmido, para o qual precisou de muita coragem. Fique durante mais algum tempo, falou olhando em seus olhos, que eram verdes, até onde ele tinha conhecimento, mas com o reflexo do céu parecia ser cor de mel, o que os deixavam mais bonitos ainda, deixava-a mais encantadora. Eles subiram ao quarto que ele estava instalado, antigo quarto de seu tio, provável pai da moça, e tiveram uma grande noite. Foi uma noite tão diferente da última, que havia sido passada em cômodos diferentes e solitária. Quando acabou o que eles estavam fazendo, e ele estava por pegar no sono, pensou o quanto errado poderia ser o que eles haviam acabado de fazer, pensou nisso sem a quantidade mínima de culpa. Depois desses pensamentos adormeceu.
Ao amanhecer, acordou junto ao canto do galo. Percebeu que com aqueles dias passados na fazenda o galo, aquele mesmo galo, passara a ser seu despertador, que anteriormente era uma caixinha verde, que só funcionava com o auxilio de pilhas as quais tinha de trocar semanalmente. Perguntou-se se o galo era seu despertador, quem havia de ser o despertador do galo. Aquele animal de vozeirão incansável e que sempre surgira tão pontualmente em suas manhãs, nunca deixando a desejar em seu ofício matinal.
Logo após a reflexão percebeu que ela havia saído de sua cama bem antes dele. Foi em seu quarto, mas suas malas não estavam mais lá. Perguntou, aos funcionários onde ela se encontrava, eles responderam que havia saído bem cedo, antes do cantar do galo. O galo, coitado, que não possuía culpa alguma. Não podia ele, também, cumprir o papel de dedo duro e cocorocar antes do tempo previsto para avisá-lo que ela estava partindo. Ela havia viajado, voltado a casa, aquela confusão com a morte do seu pai havia deixado-a exausta, pensou ele. Tirou um tanto de tabaco um bolso, um papel do outro, e fez, desastrosamente, um cigarro de fumo. Antes do café da manhã pôs-se a pensar se para ela aquela noite não havia passado de uma aventura, ou de um passatempo. Já que ambos estavam sozinhos, sem fazer nada, naquela fazenda tão grande. Durante o dia ocupou-se com as atividades da fazenda e foi à cidade comprar ração para alguns animais.
Quando deitou para dormir não parou de pensar na moça, em sua possível prima, em sua possível esposa, naquela desconhecida que havia furtado seu sono e ido embora. Até que o galo veio, mesmo sabendo que ele não havia dormido durante um segundo. Assim foi durante uma semana inteira. O galo, que antes era seu ídolo, objeto de admiração, passara a ser visto como um chato, que não tinha nada mais interessante a fazer do que acordar todas as manhãs bem cedo para perturbar seus pensamentos de desamparo.
Até que em uma manhã, exatamente oito dias depois, a mulher surpreendeu-o, reaparecendo na fazenda, agora com mais malas que da primeira vez. Eu pensei que você não voltaria, pensou ele. Eu só tinha de tratar de alguns problemas, pagar por algumas contas e vender dois ou três apartamentos. Então, você retorna quando, dessa vez, perguntou ele, ansioso e assustado. AH! Não sei. Talvez nunca mais, respondeu-lhe, sorrindo. Então eles deixaram de lado a hipótese de serem primos, enteados, ou qualquer coisa do tipo. Afinal o tio de um e possível pai de outro já estava morto e nada poderia fazer em relação ao ocorrido. 

domingo, 12 de junho de 2011

Gabriel

São seis e quinze da manhã. O despertador alarma um barulho desagradável e muito alto. O sol entra pela janela lateral e os pássaros cantam seus cantos tristes matutinos. Gabriel desliga o despertador, rola na cama quatro ou cinco vezes, põe um pano sobre os olhos e volta a dormir.
São sete e quarenta e cinco da manhã, Gabriel finalmente levanta da cama, apressado e atrasado para seu primeiro dia de aula. Passa pela cozinha pelo simples fato dela anteceder a porta principal. Não come nada, não toma banho, simplesmente molha o rosto, escova os dentes, veste uma calça e uma camiseta amassada e sai apressadamente. Na rua vê pessoas, vê motoristas enfurecidos, semáforos sinalizando a cor amarela, barulho de pneu queimando e o desagradável ruído de uma buzina acionada. O que estou eu fazendo nesse inferno, pensa Gabriel, que é de origem e criação campestre. Aos completos dezoito anos troca a companhia das vacas, dos bois ed as cabras por esses carros que passam fazendo barulho e soltando fumaça em proporções descomunais.
Finalmente chega à faculdade. Sai a procurar sua sala: 52, 54, 56... 58. Eis a sala de número 58, aula de introdução ao estudo da filosofia. Um pouco antes de entrar tenta melhorar sua aparência, pentear um pouco o cabelo tão desarrumado e checa seu hálito com a mão defronte a boca seguida de um assopro que lhe causa nojo. Joga uma bala de menta na boca, ergue os ombros e entra a sala, destemido, corajoso, confiante... Olha para um lado e outro, nada. Olha para a mesa do professor, um homem de meia idade sentado, com um livro em mãos. Onde estão todos, pergunta Gabriel. Todos quem? Se você fala de meus alunos, saíram faz cerca de quinze minutos. Minha aula não dura a manhã inteira garoto, respondeu seu mais novo professor, o primeiro com o qual ele entrara em contato. E o conteúdo da aula, pergunta o garoto. O conteúdo da aula foi dado, vê se amanhã chega na hora certa, fala o professor com cara de poucos amigos.
Segundo horário, sala 35. Lá vamos nós de novo: 31, 33 e 35... Eis a sala, a aula é história da filosofia. Poucos alunos em sala, o professor ainda não chegou. Gabriel checa novamente o cabelo e o hálito, que agora está um pouco melhor, graças à bala de menta. Ergue os ombros e entra a sala, destemido, corajoso, confiante. De longe avista uma bela garota, ruiva, cabelos cacheados à altura dos ombros, o sorriso mais belo por ele já visto, ela está sentada na última carteira da terceira fila. Ele caminha enquanto olha pra ela, tropeça numa das carteiras da primeira fila. Todos o observam, riem e voltam ao que estavam fazendo. Envergonhado, dirige-se à quinta carteira da última fila, bem distante da garota ruiva, mas continua a observá-la. Tira um livro qualquer da mochila, finge escrever alguns versos e os olhos na ruiva. A professora entra na sala, apresenta-se, dá uma introdução ao assunto por ela abordado durante o semestre, e os olhos na ruiva. Você, garoto!, exclama a professora. O colega ao lado dá-lhe um cutucão, Gabriel, então, olha pra frente. Sim, senhora, responde o rapaz mais uma vez envergonhado e mais uma vez os colegas põem-se a rir. Você é novato? Sim, sou. Seja bem vindo, fala a professora, bem mais acolhedora que o colega que leciona no horário anterior. Ah, outra coisa. Tenta tirar um pouco os olhos daquela moça que está na última carteira da terceira fila e olha um pouco pra mim. Minhas provas não são moleza, completa a professora e Gabriel, pela terceira vez torna-se assunto de riso e põem-se à vergonha.
Ao término da aula seu rumo é o de casa. Mas antes de levantar-se da carteira, volta os olhos para o fim da sala, procura, mas não encontra sua amada. Olha, rapidamente para a porta da sala e a vê indo embora, quase flutuando, com seus cachos pulando de um lado para o outro. Sem mais o que fazer na universidade busca o rumo de casa. Voltando as ruas a mesma coisa, semáforos amarelados, pneus queimados, buzinas soando freneticamente. Que inferno. Que saudades do campo. Sente um calor tremendo e se lembra da lagoa que havia atrás da sua casa, na qual tomava banho com os amigos nos dias quentes, logo depois do almoço.
Chegando à casa nova vai para debaixo do chuveiro, passa horas, depois cai duro na cama. Seus pensamentos alternam entre o caos da cidade grande, que mais parece para ele, um inferno e a garota ruiva, que mais lhe parece um anjo.
Trin.. trin... O telefone, logo na hora que ele tenta lembrar como era o rosto da garota.
Era seu melhor amigo: E aí, como se foi de aula? Como é a cidade? As pessoas foram legais com você? Gostaram de você?
É tudo tão perfeito, meu caro, e além do mais, tenho uma bela novidade. Acho que estou amando.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Afinal, o que é o amor?

Alguns dizem que amar é doar-se ao outro sem nada pedir em troca. Pelo simples prazer de entregar-se. Quem ama nada exige, nenhum sentimento de reciprocidade. É nisso que alguns acreditam. Existe também o amor Ágape, que diz que devemos amar uns aos outros como a nós mesmos. Mas esse amor é de outro tipo. Vivido por Jesus Cristo, amor à humanidade.
Há quem diga também que amar é sofrer, sofrer e sofrer sem limites. Ora! Você deve estar se perguntando, então: e essas garotinhas modernas que arrumam um namorado por semana, cada um mais babaca e bombado  que o outro? Elas não sabem o que é o amor? A resposta é não meu camarada. Aliás, quem há de saber o que é, verdadeiramente, o amor? Esse misterioso sentimento tão buscado e quando encontrado tão confundido.
Pra mim o amor só existe com calor, paixão, alegria, tristeza e sofrimento. Você deve estar pensando. O sofrimento, eis a parte ruim de tudo isso. Por que sofrer, ó Deus? Por que eu? Bobagem. Quem foi que disse que o ato de sofrer é totalmente maléfico? Quem sofre é por que foi capaz de se permitir, de deixar alguém entrar em sua vida e mexer nela. Só sofre quem está vivo. Assim como só ama quem está vivo. Ora! Já sei. O amor é um pêndulo que balança bem ao seu próprio gosto e tempo, entre o amor e o ódio, a razão e a emoção, a lucidez e a loucura.
Por isso meus caros que o sofrer faz parte disso tudo. E digo mais. Se existisse um livro chamado “O estatuto do amor” teria de conter nele um artigo tornando necessário o sofrer a quem ama. Assim como teria de ser necessário o ser feliz, o sorrir, o estar bem – mas disso ninguém reclama- quanto a isso todo mundo acha que está corretíssimo viver. Alguns acham tanto que chegam a confundir aventura com amor. Quem ama suporta os momentos de êxtase e os momentos mais ordinários. Quem ama não está a afagar sua cabeça só quando você detém um sorriso bobo e olhos de encanto. Quem ama deveria seguir a passagem bíblica criada especialmente para o nosso querido “Estatudo do amor” que diz: quem ama há de permanecer ao lado da pessoa amada, nos momentos de angústia e nos de prazer. Não para todo o sempre, contudo, enquanto o amor vigorar.
E as mulheres- ah!  as mulheres- esses seres tão difíceis de compreender. A maioria delas cisma em arrumar um canalha para suas vidas e sofrem e choram e enfeitam suas cabeças a dizer: ele vai mudar, ele prometeu que essa vez foi a última e vai mudar. Outra lembrança do nosso querido estatuto: “quem ama nessa vida por que há de trair?” Se você tem a pessoa amada ao lado, por que buscar outra? – “Mas meu amor, eu transei com ela pensando em você.” A mulher faz uma carinha de triste e aceita. Ao invés de perguntar: “por que você não transou comigo porra?” É um grande desencanto feminino querer concertar quem nasceu pra vadiagem. Se elas tanto sofrem, se elas tanto querem um homem direito por que não encontram logo um de boa índole? A única justificativa que passa pela minha cabeça é a de que a mulher busca mérito através disso. Um dia ela pretende bater no peito a dizer- Eu ajeitei esse homem. Hoje ele é só meu. – Só pode ser isso. Não existe outra justificativa.
Afinal, minhas queridas, uma coisa é sofrer por amor, outra, totalmente diferente, é sofrer por burrice.
O amor é um fogo a muitos inatingível, a outros temido e aos derradeiros aqui citados- os românticos- tão buscado quanto hora confundido. Mas a vida continua e nós continuamos cá, sem saber exatamente do que se trata o amor. Será ele um sentimento de entrega, no qual nada exige quem ama do ser amado? Será o pêndulo por mim arduamente defendido, com direito a estatuto e tudo mais? Ou será algo desconhecido e nós, pobres bobões, teimamos em entendê-lo e decifrá-lo, ao invés de senti-lo?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Relembranças

- Não chore minha querida. Nós ainda vamos nos encontrar e viver pelo resto de nossas vidas esse nosso amor. Se nós nos amamos, não há distância que nos separe.
- Isso é muito bonito, mas não serve para a vida real. Você vai embora, eu vou ficar aqui. Nós não vamos mais saber nada um do outro.
- Se cada vez que você lembrar-se de mim e eu de você, e escorrer uma lágrima de nossos rostos pela saudade, é por que nós ainda estamos juntos, mesmo longe, nós ainda estaremos juntos.
- Isso é bobagem. O tempo há de dilacerar nossos corações e nossas lembranças.
- O verdadeiro amor permanecerá, até ficarmos juntos novamente.
Dando-lhe um beijo na testa ele partiu sem olhar para trás, para não tornar aquela despedida mais difícil ainda. Ela ficou a olhar-lhe, vendo apenas seus passos e seu corpo cada vez mais distante. Não pôde ver o quanto ele chorava e se lamentava de tal fardo que teria de carregar ao abandonar sua amada. O parque no qual se passava a cena era o lugar deles, onde eles passaram seus melhores e piores momentos juntos, os de paixão e raiva, amor e desilusão.
Sua família estava de mudança para um estado ou dois de distância. Ambos acabaram de concluir o ensino médio e tinham planos de fazer faculdade juntos, mas o futuro deles agora era outro. Teriam de se separar e deixar para trás os planos que fizeram juntos. Ela ficara, começara a faculdade lá mesmo, onde sempre morou e ele foi-se embora com sua família, contra sua vontade, porém com a consciência de que isso tinha de ser feito.
Durante anos eles afundaram-se nos estudos, não saíram muito de casa. Era como se tivessem prometido um para o outro continuar sozinhos de onde eles tinham parado. Ambos formaram-se jovens e tornaram-se, rapidamente, respeitados em suas áreas de trabalho. Cerca de doze anos depois o rapaz, agora homem formado viajara de volta à sua cidade, a convite do governo, que queria sua ajuda profissional. Ele saiu de casa, despediu-se de todos. Sua família agora não era mais formada por seus pais e irmãos. Dirigiu-se ao aeroporto e deu início a sua viagem. No avião lembrava com doçura de sua juventude e de sua paixão vivida com a moça.
Ao desembarcar no aeroporto ainda era muito cedo parar dirigir-se ao local da reunião. Decidiu ir ao parque, na hora em que eles costumavam se encontrar. Às cinco da tarde, para ver o pôr do sol. Ao chegar ao parque ele tirou o paletó, sentou-se em um dos bancos e ficou a pensar na vida. De longe avistou uma mulher de idade semelhante à sua, bonita e sorridente. Pensou ser sua amada, mas, segundos depois, viu uma criança correndo para os braços da mulher abraçando-a. Um pouco depois sentiu sua visão escurecer. Alguém punha as mãos em seus olhos, a princípio pensou que fosse assalto, mas depois percebeu que aquelas mão eram mais de anjo que de marginal.
- Adivinha quem é. Falou uma voz delicada.
- Até tenho um palpite, mas tenho medo de quebrar a cara.
- Você continua o mesmo. Com medo de arriscar.
- É realmente quem eu imaginava.
Os dois viraram-se ao encontro um do outro. Sorriram, ficaram olhando detalhadamente durante segundos um para o outro tentando observar todas as mudanças trazidas pelo tempo. Mas não conseguiram ver mudança nenhuma, a não ser a idade. Os rostos não eram exatamente os mesmos, mas tinham a mesma doçura de anos atrás, os olhos não eram os mesmos, mas tinham a mesma paixão de anos atrás.
- Como você está querida? Está feliz?
- Tenho tentado. A minha vida está muito boa. E você?
- Também. Não tenho muito do que reclamar.
Conversaram durante alguns minutos, abraçaram-se como amigos, beijaram-se com carinho. Mas pela paixão trazida com aquele reencontro era inevitável o desejo de ambos. Beijaram-se ardentemente. Então, lembraram-se de um local no parque onde ninguém jamais ia. Que só eles dois conheciam e passavam lá a maior parte do tempo juntos. Correram para o tal lugar. Amaram-se o resto da tarde até o cair da noite. Depois de ótimos momentos pararam um pouco para conversarem sobre suas vidas.
- Então, conte-me, o que você tem feito da vida?
-Eu sou engenheiro. Sabe aquele novo estádio de futebol, que está sendo mostrado em todos os telejornais?Eu o projetei.
- Meus parabéns. Eu nunca duvidei da sua paixão pela engenharia.
- E você, o que tem feito?
- Virei advogada. Sabe o caso daquele terrorista, que todos pensavam que não teria penitência, mas ele foi condenado à cadeira elétrica? Eu era a advogada do caso.
- Parabéns. Eu nunca duvidei da sua competência.
Ambos estavam felizes ao ver que os sonhos que eles haviam planejado juntos haviam se tornado realidade, mesmo eles não estando juntos durante aqueles anos. Mas havia uma pergunta que eles queriam fazem um ao outro, mas um nó em suas gargantas os impediram. Foi quando ele olhou para a mão esquerda dela e falou assustado e com um semblante triste.
- E essa aliança? Casou-se?
Ela pôs em sua face, também, um semblante de tristeza.
- Sim, casei.
- Tem filhos?
- Tenho. Dois.
- Os filhos são realmente uma dádiva. E seu marido, você o ama?
- Ele é uma ótima pessoa. Muito esforçado e dedicado à família.
- Que ótimo.
-Eu também vejo em sua mão uma aliança. Quem é a sortuda?
- Antiga colega de faculdade. Ela também é uma pessoa e tanto.
- Você a ama?
- Ela é uma ótima pessoa e uma grande companheira.
- Vocês têm filhos?
- Sim. Dois também.
Eles ficaram por instantes olhando para um lado e outro, sem saber o que dizer. Até que no mesmo momento ambos disseram.
- Você o ama?
- Você a ama?
Isso tornou a situação mais difícil ainda de lidar. Enquanto se recompunham eles pensavam em todos os momentos vividos, inclusive naquele dia. Ela olhou para ele chorando e falou.
- Você disse que se nós nos amassemos ainda íamos nos encontrar. Ficaríamos juntos.
- E nós nos encontramos, nós passamos o dia mais feliz de nossas vidas hoje, nesse parque, que sempre foi nosso lugar. Disse ele, também chorando.
- E agora, o que a gente faz? Como a gente fica? E a nossa felicidade?
- Agora nós vamos ter de voltar às nossas vidas normais, para as pessoas que nos amam, que não podem viver sem nossa presença. Voltar à vida real.
-Mas eu te amo e sei que você também me ama.
- Claro querida. Nós nos amamos muito. Você é a mulher da minha vida.
- E então? O que faremos?
- Vamos embora. Voltemos a nossas vidas. Se nós realmente nos amarmos vamos ficar juntos no futuro. Encontraremo-nos novamente, assim como hoje.
 Dando-lhe um beijo na testa ele partiu. E mais uma vez ela chorou vendo apenas os passos e o corpo de seu amado cada vez mais distante. Não pôde ver o quanto ele também chorava e sentia o quanto era difícil deixar, mais uma vez, o amor da sua vida para trás.

No batuque de um forró, chorou meu coração

Segunda passada estava eu e um grupo de amigos viajando a uma cidade vizinha. Estava tudo traquilo, conversávamos descontraidamente sobre assuntos de nosso cotidiano. Falávamos sobre jogos, garotas e sobre a própria viagem. Em um segundo de silêncio, no qual permanecemos sem nada a tratar, sem o que ser dito, o sistema de som do carro é acionado e eu, logo eu, vejo-me obrigado a ouvir em um som extremamente alto, o que hoje se chama de forró, o forró que outrora foi levado aos quatro cantos por belos representantes nordestinos, elevando a cultura regional, agarrados a sanfonas que mais pareciam chorar de tanto sentimento. Luiz Gonzaga hoje é o mais antiquado dos homens, os verdadeiros cantores de forró usam tênis de mola e bonés com estampas de seus patrocinadores. Os homens do forró não são mais filhos do Nordeste, são filhos da mídia.
Agora, no exato momento que o amigo ao lado liga o som, sinto uma dor, um desconforto, ouço atentamente o que o homem com o microfone em mãos fala, mas de bom nada consigo extrair, ligo-me ao som mais agudo, depois ao mais grave e me pego batendo o pé no ritmo pela banda tocado, ameaço um rebolado e outro. Segundos depois, um pouco assustado, volto à realidade e ao bom senso, volto a minha posição de crítico tentando cumprir seu papel social de indivíduo contra esses exemplos de falta de cultura. Afinal, que mal danado fizeram ao forró. Que mal danado fizeram à música.
É quase inevitável ter de recorrer a dvd´s ou a cd´s antigos para encontrar algo audível, produtivo, que faça bem a nossos ouvidos. Há certo tempo vejo na tevê um grupo de garotos que se veste de forma esquisita, que tem modos de agir meio afeminados e dizem coisas meio bobas em suas apresentações. Um deles, podendo julgar-se romântico, pois os românticos são outra espécie em extinção, relata sua paixão em uma letra de sua “música”- aposto um beijo que você me quer- nenhum pouco atraente. Mas para as menininhas só isso basta.
Chego a pensar, em dado momento, que essas pessoas fazem isso como forma de protesto. Pois toda geração precisa de algo para protestar, caso contrário só nos restaria o comodismo.  Então, por alguns instantes a parte sensata de mim diz que esses garotos não são idiotas, não vestem suas calças de cor verde limão por seguirem uma nova tendência ou moda, que eles não seguem um padrão, nem formam um padrão, para que seus fãs se vistam e pensem como eles. Pensem? Pensar! Isso sim está se tornando cada vez mais difícil.
Então, em alguns momentos chego a sentir o sabor da felicidade por essa geração, pela geração da qual faço parte- felizmente ou infelizmente- e me pego pensando que esses garotos, com cara de retardados e jeito de criança, apesar dos vinte e poucos anos, são grandes pregadores de peças, são fãs de Chico Anysio, que levaram seu humor para a música. Fazem chacota de tudo e de todos, não levam nada a sério e o castigo deles é pousar como ridículos. Afinal todo revolucionário tem sempre uma causa pela qual lutar e abrir mão de tudo, inclusive do bom senso, como pode ser o caso desses rapazes.
O inevitável volta à tona e penso que podem eles ser realmente isso que a princípio eu havia pensado. Que podem esses garotos não estarem fazendo piada, e sim serem eles próprios a piada, piada de uma nação sedenta de cultura e bons exemplos. Além de piada eles são como os culpados- sim, culpados- por existirem tantos jovens que se vestem e agem como palhaços. O protesto da juventude, que antes ocorria em praças públicas, em universidades, todos sujos e de caras pintadas, hoje ocorre via internet (xinguemos no twitter o artista que não nos der atenção). Sites de relacionamentos servem como ponto de encontro de jovens descontentes com seus artistas favoritos. Artista? Eis uma palavra que foi banalizada no nosso polêmico século XXI.
O que nos resta amigos é rendermo-nos ao que se está fazendo ao país, à cultura, a juventude, a população. Irei me esforçar um pouco ao tentar agir como esses jovens. De início farei um teste de adaptação. Colocarei meu nariz de palhaço e desfilarei pelas ruas da cidade, como se tudo estivesse em ordem.