segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Romance Literário

Então, lá estava ele, diante da sessão de psicologia. Todos aqueles livros lhes saltando aos olhos. Aquele era o dia de chegar novos títulos, alguns que ele aguardava há semanas. Os mesmos livros que em um lapso de luz tornavam-se fundo, para que ele pudesse observar aquele ser onírico que tanto lhe despertou atenção. Magra, rabo de cavalo, tênis all star e calça jeans colada às coxas, que moldava seu corpo quadril abaixo. Alguns segundos foram o bastante para tirar dele toda a atenção e ansiedade que o fizeram ir a livraria conferir aqueles títulos que iam desde seu antigo inspirador Freud a o mais recente inspirador Calligaris.  Tampouco folheou uma página ou outra capaz, foi, de deixar de lado toda a análise, os complexos, as mnimisências e sintomas por ele estudados.
Tudo tornou-se desnecessário quando naquela figura que agora contemplava, o rapaz era capaz de encontrar a resposta para todas suas perguntas, consolo  e aquela paz a tempos fugitiva. Pensou em cumprimentá-la, perguntar-lhe o nome, olhar dentro de seus olhos, contemplar um detalhe ou outro de sua face. Conhecer sua face. Pois até então, todo aquele objeto de desejo e gozo era observado apensar pelas costas. Foi quando um senhor, de quarenta e poucos anos, muito bem trajado, barba feita e relógio de outro em um dos braços disse, com sua voz rouca: moça, por favor, consulte esse título pra mim. Pois não senhor, respondeu com a mais suave das vozes por ele ouvida, aquele ser angelical.
A moça em questão estava em seu ambiente de trabalho. Junto de toda a vestimenta antes descrita, agora perceptível a ele, tinha um avental que possuía uma estampa tão cafona quanto grande na altura do peitoral “Livraria O Recanto do Poeta”. Era naquela livraria que ele ia desde os dezessete anos, que foi quando despertou para o mundo da literatura. Foi evoluindo paulatinamente, em seus gêneros e obras. Começou por ler best-sellers. O primeiro foi um sobre uma dupla de amigos que se passava hora em Cabul, hora na Califórnia. Algum tempo depois pulou para a prateleira das poesias, onde conheceu Manuel Bandeira e seu tocante poema sobre um pardalzinho.
De lá para cá leu uma obra ou outra, entre romances e poesia. Conheceu Gabo, Rollo e Dostoiekvsi. Saiu do colégio, entrou na faculdade, pulou de um curso a outro até se fixar  na psicologia. Deparou-se com uma paixão ou outra, todas com fim prévio. Sentiu-se, novamente, em casa e hoje lá estava ele, naquela livraria, por onde passava enquanto tudo isso acontecia. E a vivacidade e ansiedade contidas nessas vivências foram tão grandes que durante todo esse tempo passou por despercebido a ele aquela garota tão bela, da qual não conhece sequer a face. Tirando os livros, a única pessoa com a qual ele fazia questão de trocar informações era o Senhor Gabriel, dono da livraria. Um velhinho inteligente e sorridente. Tinha, ele, um grande carinho pelo garoto. Em seu aniversário de dezoito anos deu-lhe Memórias de minhas putas tristes, que fala sobra a aventura de um velho de noventa anos que se apaixona por uma prostituta virgem com menos de duas décadas de vivência. E junto com a paixão pela garota vem toda uma reflexão sobre o que ele fez, sentiu ou deixou de sentir até então.
Agora, sua atenção não estavam voltadas para os livros, tampouco para o senhor Gabriel. Só tinha olhos, ele, para a moça que nesse dado momento distancia-se, rumo a sessão de livros de auto-ajuda.
Bem que ele suspeitou que aquele homem andava muito dentro dos conformes, muito bem trajado, muito alinhado e organizado em seu espaço físico externo. Contudo, ao observar seu semblante, percebeu que algo estava fora dos conformes. Como lidar com a auto-sabotagem era o título do livro que o homem gostaria de consultar. Em seu interior sentiu vontade de avisá-lo o quanto aqueles livros de auto-ajuda são tolos, que não induzem a pessoa ao auto-conhecimento e sim a seguir um padrão comportamental pré-estabelecido por um psicólogo, psiquiatra ou mesmo alguém do senso comum desocupado que decidiu escrever um livro de auto-ajuda para se auto-afirmar. “Olha, você pode ser feliz”. Essa frase é repetida por esses autores para as pessoas quando na verdade, eles querem convencer a si mesmos que é possível ser feliz.
Então, o homem compra o livro, agradece a ajuda da moça e vai-se embora. A moça, contudo, não volta para onde estava. Vai organizar um livro ou outro da prateleira de filosofia, aliás, das prateleiras, pois a filosofia e a psicologia e a religião possuíam mais prateleiras que as outras áreas de saber. “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”, pensou o jovem rapaz ansiosamente. Olhou para um lado e outro, deu um assovio falho, pois tinha goma de mascar na boca, balançou um braço, em seguida o outro e pôs-se a caminhar às prateleira que tinha os livros de Platão. Você gosta de algum destes, perguntou-a quase gaguejando e suando frio. Ela deu-lhe um sorriso, passou uns segundos calada, folheou um livro. “Penso, logo existo”, falou-lhe. Então, um tanto surpreso, pois pensava que receberia um não tão seco quanto frio, dirigiu-se à prateleira que tinha as obras de René Descartes. Então, o que mais? Ah! Eu cansei de devanear sobre a filosofia, já me questionei muito, duvidei muito, quebrei muitos conceitos que tinha desde a infância. O conhecimento pode ser algo danoso, disse-lhe a moça.
Ficaram alguns segundos calados, segundos que pareciam horas, até que a moça caminhasse à prateleira dos romances. Deparado com o silêncio e a falta do que falar, perguntou-lhe. E dessa prateleira, de que títulos você gosta? Diga-me você um, respondeu-lhe a moça. Eu? Faz um tempo que não leio romances, pelo menos não os romances românticos. Eu me sinto um romântico por excelência, mas é como se eu tivesse desaprendido um pouco como usar o romantismo. Como assim, você desaprendeu a ser romântico, perguntou-lhe a moça com um tanto de espanto e outro de tristeza ao ouvir tal frase. Não sei. Acho que é a falta de um grande amor, uma grande paixão, respondeu-lhe. Pois eu não vivo um amor há alguns anos e mesmo assim nunca perdi minha visão romântica sobre a vida. Eu acredito que a pessoa certa vai aparecer. Pode ser ela uma pessoa que eu observo a tempos nessa livraria, sempre imaginei que fosse um romântico assumido. Então, pode ser que um dia ele chegue a mim e fale uma frase que mude minha vida.
Como era cliente da livraria há anos e era um romântico,  pode-se dizer um romântico não praticamente, pelo momento que vivia, o jovem rapaz pensou que  as palavras da moça seriam um galanteio a ele. Ficou um tanto sem graça, observou-a, ela parecia procurar um livro dentre as pilhas e pilhas que tinha para organizar até as 18 horas, que era o horário que deixava a livraria. Essa pessoa romântica da qual você fala seria eu, perguntou-lhe apreensivo.
A moça deu um sorriso de canto de boca, catou em suas mãos um livro, um de seus preferidos, um dos quais gerou nela uma mudança e a fez enxergar o amor, os relacionamentos e a vida de uma maneira mais romântica. Pegou, carinhosamente, o livro, deu às mãos do rapaz e saiu apressadamente. Dentro do livro havia um bilhete: “a paixão, assim como o amor, é um sentimento divino que só pode ser sentido pelas mais românticas das criaturas. Leia este livro e volte aqui, tire-me para um café e responda você mesmo suas perguntas a mim dirigidas. ps: não demore.”

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