Aqui, em sua cidade, existe algo que proíba primos de terem relações? Pois eu só penso em beijá-la, em transar com ela, falava ele junto ao túmulo de seu tio. Era ele, um homem já não mais tão jovem, que tinha, porém, o charme de um jovem francês que o inundava. Mas ao invés da combinação clichê de boina e bigodinho, ele era detentor de óculos de graus e barba por fazer.
Encontravam-se ambos na antiga fazenda de seu tio. Sim, ambos. Era ele e sua prima, sua pretendida prima. Aliás, nenhum documento comprovava que ela era realmente sua prima, que ela era sequer da sua família. O que fazia com que ele se perguntasse de onde aquela mulher havia surgido. Por que aparecera somente agora, com o falecimento de seu pai. E sua mãe, quem seria? Por mais que essas perguntas não tivessem respostas prévias, de uma coisa ele sabia, se for ela uma impostora, uma usurpadora, a fim, apenas de pôr as mãos nos bens de seu tio, melhor ainda, pois, assim, não haveria parentesco algum que fizesse dormir inquietamente, sem saber se era correto ou não dormir ao lado daquela mulher, que tanto lhe tira o fôlego, que lhe faz pensar em uma só pessoa durante todo o dia. Quando não está pensando nela está pensando no tio, e no que ele diria sobre isso tudo.
Como bom galanteador que o falecido era, podia ele dizer, não perca tempo homem. Só você e ela nessa fazenda, saiba que eu nunca passei uma noite de solidão, ela está sentada na cama, fingindo ler algum livro, esperando você bater a porta e convidá-la para um drink, para uma conversa, para uma noite juntos. Como homem vivido e maduro seu tio também poderia responder, você não me respeita rapaz? Tantas mulheres por aí, por essa cidade, maluquinhas para cair em tentação com você, e você deseja logo sua prima, minha filha. Ele encontrara-se dividido, por suposições extremamente contrárias. Uma de gozo, outra de seriedade. Pelo sim, pelo não, preferiu parar de pensar nisso tudo. Afinal, o velho já não estava mais vivo. Havia batido as botas e nunca mais saberia qual a sensação de sentir-se seduzido. Mas quando chegou a essa conclusão já era tarde. Provavelmente sua suposta prima já havia fechado o livro, apagado a luz da cabeceira, vestido alguma roupa mais leve e entraria em mais uma noite de sono, sem que a tão esperada visita tivesse sido realizada. Pode ser também que ela esteja realmente lendo algum livro que a prende até horas da noite em um romance, ou em alguma aventura policial. Ela pode já estar com bobs nos cabelos, creme no rosto e vestida com uma camisola que mais parecera ser de sua avó. Uma cena na qual, aparentemente, ela não estava realmente esperando tal visita inesperada.
Pela manhã separou dois cavalos do celeiro. Em um pôr uma sela velha, a qual usava quando criança, quando visitava a fazenda do tio, antes de virar um homem de negócios. No outro cavalo pôr uma sela nova e acolchoada. Esperou-a, ansiosamente, descer de seu quarto, para convidá-la a um passeio. Depois de uma hora de espera viu que o dia já estava ficando quente e não tão propicio a um passeio a cavalo. Perguntou a um dos funcionários da fazendo onde ela se encontrava. O jovem rapaz respondeu-lhe que ela havia saído de casa cedo, junto da cozinheira da casa, para fazer as compras da semana. O almoço daquele dia estava por sua conta. Com a informação ele pôs em sua mente que devia, na hora da refeição, elogiar a comida.
Passou pelas plantações, pelo galinheiro e pelo açude da fazenda. Lembrou de todos seus momentos vividos ali, em sua infância, recordou de onde haviam surgido algumas de suas cicatrizes, das quais já havia esquecido a origem, e pensou seriamente em nunca mais voltar para a cidade. Nunca mais ter de fechar negócios milionários e passar finais de semanas trabalhando. Pensou, também, em ir à missa ao domingo. Já que estava na fazenda por tempo indeterminado e que o desejo de por ali ficar era realmente sedutor.
Quando retornou a casa viu, finalmente, sua prima, enteada, namorada, futura esposa, sabe-se lá o que é dele essa mulher. Só sei que ele estava perdido, perdido de amores. Perguntou-a como havia sido o dia. Ora, mas o dia mal começou você já quer saber como ele foi. Apesar da resposta abusada ela conseguiu falar essas palavras com uma ternura jamais vista por ele, pôs na boca ainda, ao final da fala, um leve sorriso, seguido de uma piscadela.
No almoço perguntou a moça de onde ela vinha o que fazia e como sua mãe conhecera seu tio. Ela dizia ser do estado vizinho, era corretora de imóveis e que sua mãe havia sido uma paixão na vida do agora defunto, e que antes de morrer seu pai não havia ficado sabendo de sua existência, nem ela da existência dele. Completou dizendo que só responderia mais alguma de suas perguntas na presença de seu advogado, tentou ficar séria, mas pôs-se a rir. Ele entendeu a piada, entretanto, ficou desconfiado, calando-se, assim, durante o restante do almoço. Não teve coragem nem de elogiar o a refeição.
Ao entardecer os dois estavam na varanda da casa. Era um momento único, que não havia ocorrido antes, desde o dia anterior, que foi quando ela chegou. Até quando você pretende ficar, perguntou-lhe. Até amanhã, respondeu ela observando o sol se escondendo e o céu, que possuía uma mistura de cores, ora vermelho, ora dourado, e o que era mais encantador ainda, ora ambas as cores. Catou uma rosa, pegou em suas mãos, colocou-a em uma delas e na outra deu um beijo úmido, para o qual precisou de muita coragem. Fique durante mais algum tempo, falou olhando em seus olhos, que eram verdes, até onde ele tinha conhecimento, mas com o reflexo do céu parecia ser cor de mel, o que os deixavam mais bonitos ainda, deixava-a mais encantadora. Eles subiram ao quarto que ele estava instalado, antigo quarto de seu tio, provável pai da moça, e tiveram uma grande noite. Foi uma noite tão diferente da última, que havia sido passada em cômodos diferentes e solitária. Quando acabou o que eles estavam fazendo, e ele estava por pegar no sono, pensou o quanto errado poderia ser o que eles haviam acabado de fazer, pensou nisso sem a quantidade mínima de culpa. Depois desses pensamentos adormeceu.
Ao amanhecer, acordou junto ao canto do galo. Percebeu que com aqueles dias passados na fazenda o galo, aquele mesmo galo, passara a ser seu despertador, que anteriormente era uma caixinha verde, que só funcionava com o auxilio de pilhas as quais tinha de trocar semanalmente. Perguntou-se se o galo era seu despertador, quem havia de ser o despertador do galo. Aquele animal de vozeirão incansável e que sempre surgira tão pontualmente em suas manhãs, nunca deixando a desejar em seu ofício matinal.
Logo após a reflexão percebeu que ela havia saído de sua cama bem antes dele. Foi em seu quarto, mas suas malas não estavam mais lá. Perguntou, aos funcionários onde ela se encontrava, eles responderam que havia saído bem cedo, antes do cantar do galo. O galo, coitado, que não possuía culpa alguma. Não podia ele, também, cumprir o papel de dedo duro e cocorocar antes do tempo previsto para avisá-lo que ela estava partindo. Ela havia viajado, voltado a casa, aquela confusão com a morte do seu pai havia deixado-a exausta, pensou ele. Tirou um tanto de tabaco um bolso, um papel do outro, e fez, desastrosamente, um cigarro de fumo. Antes do café da manhã pôs-se a pensar se para ela aquela noite não havia passado de uma aventura, ou de um passatempo. Já que ambos estavam sozinhos, sem fazer nada, naquela fazenda tão grande. Durante o dia ocupou-se com as atividades da fazenda e foi à cidade comprar ração para alguns animais.
Quando deitou para dormir não parou de pensar na moça, em sua possível prima, em sua possível esposa, naquela desconhecida que havia furtado seu sono e ido embora. Até que o galo veio, mesmo sabendo que ele não havia dormido durante um segundo. Assim foi durante uma semana inteira. O galo, que antes era seu ídolo, objeto de admiração, passara a ser visto como um chato, que não tinha nada mais interessante a fazer do que acordar todas as manhãs bem cedo para perturbar seus pensamentos de desamparo.
Até que em uma manhã, exatamente oito dias depois, a mulher surpreendeu-o, reaparecendo na fazenda, agora com mais malas que da primeira vez. Eu pensei que você não voltaria, pensou ele. Eu só tinha de tratar de alguns problemas, pagar por algumas contas e vender dois ou três apartamentos. Então, você retorna quando, dessa vez, perguntou ele, ansioso e assustado. AH! Não sei. Talvez nunca mais, respondeu-lhe, sorrindo. Então eles deixaram de lado a hipótese de serem primos, enteados, ou qualquer coisa do tipo. Afinal o tio de um e possível pai de outro já estava morto e nada poderia fazer em relação ao ocorrido.
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