quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Capitu


Observando um palmo a frente via a paisagem trêmula. Daquelas que só se pode ver no deserto, ou à beira de um fogão aceso em sua mais alta temperatura.
- Que calor insuportável.
-Até a água do chuveiro pegou essa mania de ficar quente. Não se pode tomar um banho, parece até que a água está sendo derramada de uma caldeira.
Bentinho e Capitu moravam juntos há apenas alguns meses, por obrigação do destino. Capitu havia sido expulsa de casa, quando seus pais souberam de sua gestação. Já Bentinho não suportava mais conviver com seu agora superior, hierarquicamente, José Dias.  Desde a morte do pai de Bentinho, José Dias assumira o posto de homem da casa. Encarregado de dar ordens aos criados e carícias a D. Glória, recém enviuvada. O defunto, certamente, se debate dentro do caixão. Afinal, não esperava tal oportunismo vindo de José Dias, pelo menos não tão rápido. O corpo sequer esfriara. Mal fazia três meses que o defunto havia deixado seu posto em aberto. O falecido era um homem de bom coração, pois havia tirado José Dias das ruas, onde vivia como charlatão, vendedor ambulante. Deu-lhe casa, comida, bons trajes e um ofício digno. Agora, logo após sua morte ele tornara-se novamente um oportunista. Era demais. Coitada de D. Glória.  Foi demais para Bentinho.
Juntaram-se os dois, Bentinho e Capitu, alugaram um apartamento bem pequeno, de cômodos poucos e curtos.  Passaram, então, a morar juntos.
- Minha querida, nossas vidas irão melhorar.
- É bom mesmo que melhorem. Afinal, carrego nosso filho em meu útero.
- Nosso?
- Sim, nosso. Tens dúvidas?
Bentinho aquietou-se com o questionamento. Capitu deu de costas e foi preparar o jantar.
Cosme, tio de Bentinho, homem de caráter e grande coração, era quem estava ajudando os dois no início de suas vidas de marido e mulher. Mandava-lhes o dinheiro do aluguel e dava-lhes, sempre, o que comer. Isso, claro, escondido de Glória. Na cabeça dela Bentinho estava só querendo chamar atenção e, mais cedo ou mais tarde ele havia de retornar para debaixo de sua asa. Ela sentia muita falta de seu filho. Era ele que a acompanhava no culto evangélico, que, certa temporada, chegou de ocorrer dia sim outro não. D. Gloria havia tornado-se evangélica desde a morte de seu marido. Agora passeava dando paz do Senhor aos quatro cantos da cidade. Tal qual seu vizinho, pai de Capitu. O ex-funcionário público Pádua, que não cansava de tirar seu chapéu da cabeça, sempre a cumprimentar os outros. Pádua possuía um grande apresso por passados, de todos os tipos e tamanhos. Depois que expulsou Capitu de casa fez do quarto da moça um belo viveiro, onde pôs alguns pássaros que havia comprado ilegalmente. Tenho lá minhas dúvidas se Pádua expulsou sua própria filha de casa pela desonra de sua gravidez ou por pura vaidade e falta de espaço para seus pássaros.
Logo que foi dispensado de seu emprego público Pádua arrumou uma forma bem mais fácil de arrumar dinheiro. As brigas de galo estavam em alta na cidade. Seu quintal era muito grande e já não tinha nenhum tipo de planta ou animal, que, futuramente poderiam servir à ceia. E como os galos também são aves não precisou fugir do seu hobby primordial. Montou uma arena e passou a promover brigas de galo. Sua mulher não concordava muito com a atitude de seu marido. Achou desumana. Mas galo não é gente e as atividades estavam lhe proporcionando capital para comprar jóias e sapatos novos. Concordou, então, sem mais balbuciar uma só palavra de desagrado, com aquela atividade que seu marido agora chamava de ofício.
Passavam-se alguns dias e Bentinho estava preocupado. Procurando emprego, olhando os classificados. Foi quando recebeu uma ligação de seu tio.
- Olá Tio Cosme.
- Bento, meu filho. Sua mãe está a sua procura. Acreditas, tu, que o louco do José Dias a fez jogar no jogo do bicho?
- Aquele safado fez isso? Eu vou fazer jus a meu pai. Irei agora mesmo a minha casa conversar com ele, homem a homem. Minha mãe, mulher tão devota. Sempre me ensinou que jogo é coisa do capeta. Que não se deve jogar. Esse dinheiro todo é sujo.
- Meu filho, pare de falar asneiras. Sua mãe ganhou. Está rica, muito rica.
- Mas isso é verdade? Até mais ver tio. Tenho que me vestir. Irei visitar minha querida mãe e meu enteado.
Capitu não entendeu nada da conversa, e ficou sem entender até que Bentinho retornasse. Ele chegou desconfiado, com um pacote entre o braço e a axila, trajava um terno totalmente azul escuro, sapatos sociais e uma gravata. Ao ver Bento nesses trajes passou a entender menos ainda o que estava acontecendo. Pensou que Bentinho havia encontrado uma mulher mais velha, que o sustentasse. Que havia retornado à casa só para fazer chacota com aquela que se intitulava sua amada.
- Fale homem. O que aconteceu?
-Querida Capitu, estamos feitos na vida.
- Como assim? Fale logo.
- Mamãe ficou rica, fez uma aposta e ganhou.
- Mas sua mãe não é contra apostas? Ela não acha isso errado?
- Sim. Porém, junto de sua aposta ela fez uma promessa.
- Que diabo de promessa? Que embrulho é esse?
Bentinho riu, olhou-se no espelho, admirando sua nova vestimenta. Deu um breve sorriso, levantando a mão dizendo... paz do Senhor irmão. Capitu estava mais confusa ainda. Bentinho, ao ver a aflição de sua amada pôs-se a falar.
- Minha querida, este embrulho é uma bíblia. Minha mãe fez a promessa de que se ganhasse na aposta eu, seu único filho, teria a vida voltada à igreja.
Continuou a sorrir.
-Beata! Carola! Papa-missas!
-Calma. A idéia é de muito bom grado. Minha mãe agora é evangélica. Portanto, serei eu pastor. Por isso tais vestimentas. E os pastores têm esposas. Não precisaremos deixar de viver juntos.
- Eu ainda acho isso loucura.
-Quão ingênua és tu, pequena Capitu. Você não se informa das notícias? Ser pastor hoje em dia é um ótimo negócio. Nós podemos comprar algumas mansões e ter nossa própria emissora de televisão. 

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