segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Romance Literário

Então, lá estava ele, diante da sessão de psicologia. Todos aqueles livros lhes saltando aos olhos. Aquele era o dia de chegar novos títulos, alguns que ele aguardava há semanas. Os mesmos livros que em um lapso de luz tornavam-se fundo, para que ele pudesse observar aquele ser onírico que tanto lhe despertou atenção. Magra, rabo de cavalo, tênis all star e calça jeans colada às coxas, que moldava seu corpo quadril abaixo. Alguns segundos foram o bastante para tirar dele toda a atenção e ansiedade que o fizeram ir a livraria conferir aqueles títulos que iam desde seu antigo inspirador Freud a o mais recente inspirador Calligaris.  Tampouco folheou uma página ou outra capaz, foi, de deixar de lado toda a análise, os complexos, as mnimisências e sintomas por ele estudados.
Tudo tornou-se desnecessário quando naquela figura que agora contemplava, o rapaz era capaz de encontrar a resposta para todas suas perguntas, consolo  e aquela paz a tempos fugitiva. Pensou em cumprimentá-la, perguntar-lhe o nome, olhar dentro de seus olhos, contemplar um detalhe ou outro de sua face. Conhecer sua face. Pois até então, todo aquele objeto de desejo e gozo era observado apensar pelas costas. Foi quando um senhor, de quarenta e poucos anos, muito bem trajado, barba feita e relógio de outro em um dos braços disse, com sua voz rouca: moça, por favor, consulte esse título pra mim. Pois não senhor, respondeu com a mais suave das vozes por ele ouvida, aquele ser angelical.
A moça em questão estava em seu ambiente de trabalho. Junto de toda a vestimenta antes descrita, agora perceptível a ele, tinha um avental que possuía uma estampa tão cafona quanto grande na altura do peitoral “Livraria O Recanto do Poeta”. Era naquela livraria que ele ia desde os dezessete anos, que foi quando despertou para o mundo da literatura. Foi evoluindo paulatinamente, em seus gêneros e obras. Começou por ler best-sellers. O primeiro foi um sobre uma dupla de amigos que se passava hora em Cabul, hora na Califórnia. Algum tempo depois pulou para a prateleira das poesias, onde conheceu Manuel Bandeira e seu tocante poema sobre um pardalzinho.
De lá para cá leu uma obra ou outra, entre romances e poesia. Conheceu Gabo, Rollo e Dostoiekvsi. Saiu do colégio, entrou na faculdade, pulou de um curso a outro até se fixar  na psicologia. Deparou-se com uma paixão ou outra, todas com fim prévio. Sentiu-se, novamente, em casa e hoje lá estava ele, naquela livraria, por onde passava enquanto tudo isso acontecia. E a vivacidade e ansiedade contidas nessas vivências foram tão grandes que durante todo esse tempo passou por despercebido a ele aquela garota tão bela, da qual não conhece sequer a face. Tirando os livros, a única pessoa com a qual ele fazia questão de trocar informações era o Senhor Gabriel, dono da livraria. Um velhinho inteligente e sorridente. Tinha, ele, um grande carinho pelo garoto. Em seu aniversário de dezoito anos deu-lhe Memórias de minhas putas tristes, que fala sobra a aventura de um velho de noventa anos que se apaixona por uma prostituta virgem com menos de duas décadas de vivência. E junto com a paixão pela garota vem toda uma reflexão sobre o que ele fez, sentiu ou deixou de sentir até então.
Agora, sua atenção não estavam voltadas para os livros, tampouco para o senhor Gabriel. Só tinha olhos, ele, para a moça que nesse dado momento distancia-se, rumo a sessão de livros de auto-ajuda.
Bem que ele suspeitou que aquele homem andava muito dentro dos conformes, muito bem trajado, muito alinhado e organizado em seu espaço físico externo. Contudo, ao observar seu semblante, percebeu que algo estava fora dos conformes. Como lidar com a auto-sabotagem era o título do livro que o homem gostaria de consultar. Em seu interior sentiu vontade de avisá-lo o quanto aqueles livros de auto-ajuda são tolos, que não induzem a pessoa ao auto-conhecimento e sim a seguir um padrão comportamental pré-estabelecido por um psicólogo, psiquiatra ou mesmo alguém do senso comum desocupado que decidiu escrever um livro de auto-ajuda para se auto-afirmar. “Olha, você pode ser feliz”. Essa frase é repetida por esses autores para as pessoas quando na verdade, eles querem convencer a si mesmos que é possível ser feliz.
Então, o homem compra o livro, agradece a ajuda da moça e vai-se embora. A moça, contudo, não volta para onde estava. Vai organizar um livro ou outro da prateleira de filosofia, aliás, das prateleiras, pois a filosofia e a psicologia e a religião possuíam mais prateleiras que as outras áreas de saber. “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”, pensou o jovem rapaz ansiosamente. Olhou para um lado e outro, deu um assovio falho, pois tinha goma de mascar na boca, balançou um braço, em seguida o outro e pôs-se a caminhar às prateleira que tinha os livros de Platão. Você gosta de algum destes, perguntou-a quase gaguejando e suando frio. Ela deu-lhe um sorriso, passou uns segundos calada, folheou um livro. “Penso, logo existo”, falou-lhe. Então, um tanto surpreso, pois pensava que receberia um não tão seco quanto frio, dirigiu-se à prateleira que tinha as obras de René Descartes. Então, o que mais? Ah! Eu cansei de devanear sobre a filosofia, já me questionei muito, duvidei muito, quebrei muitos conceitos que tinha desde a infância. O conhecimento pode ser algo danoso, disse-lhe a moça.
Ficaram alguns segundos calados, segundos que pareciam horas, até que a moça caminhasse à prateleira dos romances. Deparado com o silêncio e a falta do que falar, perguntou-lhe. E dessa prateleira, de que títulos você gosta? Diga-me você um, respondeu-lhe a moça. Eu? Faz um tempo que não leio romances, pelo menos não os romances românticos. Eu me sinto um romântico por excelência, mas é como se eu tivesse desaprendido um pouco como usar o romantismo. Como assim, você desaprendeu a ser romântico, perguntou-lhe a moça com um tanto de espanto e outro de tristeza ao ouvir tal frase. Não sei. Acho que é a falta de um grande amor, uma grande paixão, respondeu-lhe. Pois eu não vivo um amor há alguns anos e mesmo assim nunca perdi minha visão romântica sobre a vida. Eu acredito que a pessoa certa vai aparecer. Pode ser ela uma pessoa que eu observo a tempos nessa livraria, sempre imaginei que fosse um romântico assumido. Então, pode ser que um dia ele chegue a mim e fale uma frase que mude minha vida.
Como era cliente da livraria há anos e era um romântico,  pode-se dizer um romântico não praticamente, pelo momento que vivia, o jovem rapaz pensou que  as palavras da moça seriam um galanteio a ele. Ficou um tanto sem graça, observou-a, ela parecia procurar um livro dentre as pilhas e pilhas que tinha para organizar até as 18 horas, que era o horário que deixava a livraria. Essa pessoa romântica da qual você fala seria eu, perguntou-lhe apreensivo.
A moça deu um sorriso de canto de boca, catou em suas mãos um livro, um de seus preferidos, um dos quais gerou nela uma mudança e a fez enxergar o amor, os relacionamentos e a vida de uma maneira mais romântica. Pegou, carinhosamente, o livro, deu às mãos do rapaz e saiu apressadamente. Dentro do livro havia um bilhete: “a paixão, assim como o amor, é um sentimento divino que só pode ser sentido pelas mais românticas das criaturas. Leia este livro e volte aqui, tire-me para um café e responda você mesmo suas perguntas a mim dirigidas. ps: não demore.”

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Relembranças

- Não chore minha querida. Nós ainda vamos nos encontrar e viver pelo resto de nossas vidas esse nosso amor. Se nós nos amamos, não há distância que nos separe.
- Isso é muito bonito, mas não serve para a vida real. Você vai embora, eu vou ficar aqui. Nós não vamos mais saber nada um do outro.
- Se cada vez que você lembrar-se de mim e eu de você, e escorrer uma lágrima de nossos rostos pela saudade, é por que nós ainda estamos juntos, mesmo longe, nós ainda estaremos juntos.
- Isso é bobagem. O tempo há de dilacerar nossos corações e nossas lembranças.
- O verdadeiro amor permanecerá, até ficarmos juntos novamente.
Dando-lhe um beijo na testa ele partiu sem olhar para trás, para não tornar aquela despedida mais difícil ainda. Ela ficou a olhar-lhe, vendo apenas seus passos e seu corpo cada vez mais distante. Não pôde ver o quanto ele chorava e se lamentava de tal fardo que teria de carregar ao abandonar sua amada. O parque no qual se passava a cena era o lugar deles, onde eles passaram seus melhores e piores momentos juntos, os de paixão e raiva, amor e desilusão.
Sua família estava de mudança para um estado ou dois de distância. Ambos acabaram de concluir o ensino médio e tinham planos de fazer faculdade juntos, mas o futuro deles agora era outro. Teriam de se separar e deixar para trás os planos que fizeram juntos. Ela ficara, começara a faculdade lá mesmo, onde sempre morou e ele foi-se embora com sua família, contra sua vontade, porém com a consciência de que isso tinha de ser feito.
Durante anos eles afundaram-se nos estudos, não saíram muito de casa. Era como se tivessem prometido um para o outro continuar sozinhos de onde eles tinham parado. Ambos formaram-se jovens e tornaram-se, rapidamente, respeitados em suas áreas de trabalho. Cerca de doze anos depois o rapaz, agora homem formado viajara de volta à sua cidade, a convite do governo, que queria sua ajuda profissional. Ele saiu de casa, despediu-se de todos. Sua família agora não era mais formada por seus pais e irmãos. Dirigiu-se ao aeroporto e deu início a sua viagem. No avião lembrava com doçura de sua juventude e de sua paixão vivida com a moça.
Ao desembarcar no aeroporto ainda era muito cedo parar dirigir-se ao local da reunião. Decidiu ir ao parque, na hora em que eles costumavam se encontrar. Às cinco da tarde, para ver o pôr do sol. Ao chegar ao parque ele tirou o paletó, sentou-se em um dos bancos e ficou a pensar na vida. De longe avistou uma mulher de idade semelhante à sua, bonita e sorridente. Pensou ser sua amada, mas, segundos depois, viu uma criança correndo para os braços da mulher abraçando-a. Um pouco depois sentiu sua visão escurecer. Alguém punha as mãos em seus olhos, a princípio pensou que fosse assalto, mas depois percebeu que aquelas mão eram mais de anjo que de marginal.
- Adivinha quem é. Falou uma voz delicada.
- Até tenho um palpite, mas tenho medo de quebrar a cara.
- Você continua o mesmo. Com medo de arriscar.
- É realmente quem eu imaginava.
Os dois viraram-se ao encontro um do outro. Sorriram, ficaram olhando detalhadamente durante segundos um para o outro tentando observar todas as mudanças trazidas pelo tempo. Mas não conseguiram ver mudança nenhuma, a não ser a idade. Os rostos não eram exatamente os mesmos, mas tinham a mesma doçura de anos atrás, os olhos não eram os mesmos, mas tinham a mesma paixão de anos atrás.
- Como você está querida? Está feliz?
- Tenho tentado. A minha vida está muito boa. E você?
- Também. Não tenho muito do que reclamar.
Conversaram durante alguns minutos, abraçaram-se como amigos, beijaram-se com carinho. Mas pela paixão trazida com aquele reencontro era inevitável o desejo de ambos. Beijaram-se ardentemente. Então, lembraram-se de um local no parque onde ninguém jamais ia. Que só eles dois conheciam e passavam lá a maior parte do tempo juntos. Correram para o tal lugar. Amaram-se o resto da tarde até o cair da noite. Depois de ótimos momentos pararam um pouco para conversarem sobre suas vidas.
- Então, conte-me, o que você tem feito da vida?
-Eu sou engenheiro. Sabe aquele novo estádio de futebol, que está sendo mostrado em todos os telejornais?Eu o projetei.
- Meus parabéns. Eu nunca duvidei da sua paixão pela engenharia.
- E você, o que tem feito?
- Virei advogada. Sabe o caso daquele terrorista, que todos pensavam que não teria penitência, mas ele foi condenado à cadeira elétrica? Eu era a advogada do caso.
- Parabéns. Eu nunca duvidei da sua competência.
Ambos estavam felizes ao ver que os sonhos que eles haviam planejado juntos haviam se tornado realidade, mesmo eles não estando juntos durante aqueles anos. Mas havia uma pergunta que eles queriam fazem um ao outro, mas um nó em suas gargantas os impediram. Foi quando ele olhou para a mão esquerda dela e falou assustado e com um semblante triste.
- E essa aliança? Casou-se?
Ela pôs em sua face, também, um semblante de tristeza.
- Sim, casei.
- Tem filhos?
- Tenho. Dois.
- Os filhos são realmente uma dádiva. E seu marido, você o ama?
- Ele é uma ótima pessoa. Muito esforçado e dedicado à família.
- Que ótimo.
-Eu também vejo em sua mão uma aliança. Quem é a sortuda?
- Antiga colega de faculdade. Ela também é uma pessoa e tanto.
- Você a ama?
- Ela é uma ótima pessoa e uma grande companheira.
- Vocês têm filhos?
- Sim. Dois também.
Eles ficaram por instantes olhando para um lado e outro, sem saber o que dizer. Até que no mesmo momento ambos disseram.
- Você o ama?
- Você a ama?
Isso tornou a situação mais difícil ainda de lidar. Enquanto se recompunham eles pensavam em todos os momentos vividos, inclusive naquele dia. Ela olhou para ele chorando e falou.
- Você disse que se nós nos amassemos ainda íamos nos encontrar. Ficaríamos juntos.
- E nós nos encontramos, nós passamos o dia mais feliz de nossas vidas hoje, nesse parque, que sempre foi nosso lugar. Disse ele, também chorando.
- E agora, o que a gente faz? Como a gente fica? E a nossa felicidade?
- Agora nós vamos ter de voltar às nossas vidas normais, para as pessoas que nos amam, que não podem viver sem nossa presença. Voltar à vida real.
-Mas eu te amo e sei que você também me ama.
- Claro querida. Nós nos amamos muito. Você é a mulher da minha vida.
- E então? O que faremos?
- Vamos embora. Voltemos a nossas vidas. Se nós realmente nos amarmos vamos ficar juntos no futuro. Encontraremo-nos novamente, assim como hoje.
 Dando-lhe um beijo na testa ele partiu. E mais uma vez ela chorou vendo apenas os passos e o corpo de seu amado cada vez mais distante. Não pôde ver o quanto ele também chorava e sentia o quanto era difícil deixar, mais uma vez, o amor da sua vida para trás.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Correspondência virtual

Então, já depois da meia noite, para quebrar um tanto da rotina e outro tanto do gelo contido em seus corações, eles decidem fazer de seus e-mails suas caixas de correio.
Sobre o que seria o amor, ou algo muito além disso saíram as seguintes falas, no caso, as seguintes escritas.


"eu quero muito um amor simples, um homem que me encante, simples, com quem eu possa conversar sobre livros, sobre a vida, sobre o pouco de música que eu sei. companheirismo, sabe?"
       
Naira Mariane Gondim



"Essa história de os opostos se atraem é furada. A gente tem que procurar alguém parecido com a gente. Daí você atribui valor às mesmas coisas que a pessoa que tá ao seu lado e tudo é mais compatível."
Iury Pereira Araujo


                                                                                    

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Um bem menos poeta

Os homens são lentos
Tão lentos que demoram a perceber
Quando a mulher que deseja
Também o deseja
Com mesmo pudor e paixão
Ao invés de correr e trancá-las em seus braços

Ficam a sofrer
E lamentar o fardo carregado
De não ter ao lado a mulher que sonha
A mulher que deseja
A mulher que está bem ao seu lado desejando o mesmo
Desejando que ele perceba o quanto seus olhos brilham ao encontrá-lo

E o quanto aquele café prolongou-se não, simplesmente, por que ela não queria ir embora
Mas por que queria, ela, ficar um bocado mais em sua companhia
Também não percebe o quanto ela faz questão de esnobar outrem
Que possa cruzar seus caminhos
Deixando logo a desesperança e a solidão a um terceiro
E o tolo, o que vê?

Sua bela amada cobiçada não só por ele
Mas por outros cavalheiros
E traz para si o fardo de não poder possuí-la
Pois é, ele, apenas mais um sonhador
Que sonha com a mulher perfeita
A mulher que está tão perto e ao mesmo tempo tão longe

E assim ela cansa
Cansa de esperar
Cansa de dar sinais
Cansa de jogar seu charme
Cansa de ser engraçada durante dias
E de tentar agradá-lo, por mais que ele não perceba

E o tolo homem?
Cansa de ser tolo
E põem-se a declaram-se a mulher amada
Põe-se a fazer juras de amor
Põe-se a falar daquele amor há tanto reprimido
Posto para fora com um vagão ou outro de atraso

A bela mulher
Sem nada mais poder fazer
Explica-lhe tudo
O quanto aguardou esse galanteio
E o quanto pode ter sido melhor
Que ele tenha ocorrido tardiamente

Pois em sua memória e em seu peito
Já existe outro cavalheiro
Um bem menos tardio
Um bem menos atrasado
Um bem menos pateta
Um bem menos poeta

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Observação: Sim, não existe lá muita concordância entre singular e plural entre um estrofe e outro. Contudo, essa foi a melhor forma na qual a poesia se anunciou.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Portão de embarque


- Nossa história jamais daria certo. Histórias como a nossa só dão certo naqueles filmes hollywoodianos, que fazem as pessoas pensarem que ainda vale a pena acreditar no amor e nessa história toda.
- É bem verdade. Nosso romance jamais daria certo. Nós moramos distante.
- Além disso, temos planos adversos. Não adianta. Não daria certo.
- Isso mesmo. O futuro não há de ser nosso aliado.
- É. Por mais que nós esperemos um ao outro, sempre haverá um contratempo. 
- Sabe! Eu até que gosto dos filmes norte-americanos.
- Eu também. É esse o problema.
- Então, você aceita namorar comigo?
- Claro que eu aceito, seu bobinho. Se não for você, quem há de ser?
Eles beijaram-se apressadamente e deram um forte abraço. Na troca de olhares não havia um adeus, mas no até logo. Ela embarcou no trem, ele acompanhou seu vagão com os olhos e só virou-se para ir embora quando não mais sentiu o tremor dos trilhos a seus pés.

sábado, 20 de agosto de 2011

Até outrora

-Até outrora...
Até outrora! Isso era o melhor que ele podia dizer-lhe. Moço bem parecido, de boa família, bela barba e roupa alinhada, metido a poeta e letrista. Quando sua bela amiga diz que vai-se embora esse é o melhor que ele a oferece.
- Até outrora.
Parece até um escritor aposentado, colunista de um jornal qualquer, que recebe o dobro do aposento pra escrever um conto semanal sobre um casal bobo de namorados que cismam em se reapaixonar semanalmente, só para deixar o cunhado de leitores daquele jornal mais felizes.
Agora imaginem o tal escritor indo a padaria, comprando uma dúzia de ovos e oito pães carioquinha. O dono da padaria lhe dá um até logo e o velho responde:
-Até outrora.
Uma resposta seca, como quem diz: É! Tanto faz. E foi essa mesma expressão usada pelo jovem rapaz a sua encantadora amiga.
-Até outrora.
Quão bobão e imaturo é. Não faz jus a sua barba nem a sua roupa de linho. Faltou-lhe sensibilidade. Ele que tanto gosta de escrever sobre romance.
Talvez seu futuro seja o mesmo do velho escritor que vai a padaria todos os dias e escreve semanalmente naquele jornalzinho de pouca publicação e de pouca arrecadação publicitária.
Já até o imagino daqui a alguns anos na mesma padaria, com o mesmo saco de pão, dirigindo-se ao filho, neto, sobrinho, ou sei lá o que do atual dono da padaria, dando-lhe a mesma saudação.
-Até outrora.
E por fim, assim viverão a mesma vida. O velho escritor e o jovem poetinha romântico e insensível com as amigas.
Mas, ora bolas, já me estendi demais com essa história falando sobre escritores frustrados e gagás. Com todo o respeito, sem um fim prévio, cá oficializo o desfecho do meu discurso e de vocês me despeço.
-Até outrora.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Capitu


Observando um palmo a frente via a paisagem trêmula. Daquelas que só se pode ver no deserto, ou à beira de um fogão aceso em sua mais alta temperatura.
- Que calor insuportável.
-Até a água do chuveiro pegou essa mania de ficar quente. Não se pode tomar um banho, parece até que a água está sendo derramada de uma caldeira.
Bentinho e Capitu moravam juntos há apenas alguns meses, por obrigação do destino. Capitu havia sido expulsa de casa, quando seus pais souberam de sua gestação. Já Bentinho não suportava mais conviver com seu agora superior, hierarquicamente, José Dias.  Desde a morte do pai de Bentinho, José Dias assumira o posto de homem da casa. Encarregado de dar ordens aos criados e carícias a D. Glória, recém enviuvada. O defunto, certamente, se debate dentro do caixão. Afinal, não esperava tal oportunismo vindo de José Dias, pelo menos não tão rápido. O corpo sequer esfriara. Mal fazia três meses que o defunto havia deixado seu posto em aberto. O falecido era um homem de bom coração, pois havia tirado José Dias das ruas, onde vivia como charlatão, vendedor ambulante. Deu-lhe casa, comida, bons trajes e um ofício digno. Agora, logo após sua morte ele tornara-se novamente um oportunista. Era demais. Coitada de D. Glória.  Foi demais para Bentinho.
Juntaram-se os dois, Bentinho e Capitu, alugaram um apartamento bem pequeno, de cômodos poucos e curtos.  Passaram, então, a morar juntos.
- Minha querida, nossas vidas irão melhorar.
- É bom mesmo que melhorem. Afinal, carrego nosso filho em meu útero.
- Nosso?
- Sim, nosso. Tens dúvidas?
Bentinho aquietou-se com o questionamento. Capitu deu de costas e foi preparar o jantar.
Cosme, tio de Bentinho, homem de caráter e grande coração, era quem estava ajudando os dois no início de suas vidas de marido e mulher. Mandava-lhes o dinheiro do aluguel e dava-lhes, sempre, o que comer. Isso, claro, escondido de Glória. Na cabeça dela Bentinho estava só querendo chamar atenção e, mais cedo ou mais tarde ele havia de retornar para debaixo de sua asa. Ela sentia muita falta de seu filho. Era ele que a acompanhava no culto evangélico, que, certa temporada, chegou de ocorrer dia sim outro não. D. Gloria havia tornado-se evangélica desde a morte de seu marido. Agora passeava dando paz do Senhor aos quatro cantos da cidade. Tal qual seu vizinho, pai de Capitu. O ex-funcionário público Pádua, que não cansava de tirar seu chapéu da cabeça, sempre a cumprimentar os outros. Pádua possuía um grande apresso por passados, de todos os tipos e tamanhos. Depois que expulsou Capitu de casa fez do quarto da moça um belo viveiro, onde pôs alguns pássaros que havia comprado ilegalmente. Tenho lá minhas dúvidas se Pádua expulsou sua própria filha de casa pela desonra de sua gravidez ou por pura vaidade e falta de espaço para seus pássaros.
Logo que foi dispensado de seu emprego público Pádua arrumou uma forma bem mais fácil de arrumar dinheiro. As brigas de galo estavam em alta na cidade. Seu quintal era muito grande e já não tinha nenhum tipo de planta ou animal, que, futuramente poderiam servir à ceia. E como os galos também são aves não precisou fugir do seu hobby primordial. Montou uma arena e passou a promover brigas de galo. Sua mulher não concordava muito com a atitude de seu marido. Achou desumana. Mas galo não é gente e as atividades estavam lhe proporcionando capital para comprar jóias e sapatos novos. Concordou, então, sem mais balbuciar uma só palavra de desagrado, com aquela atividade que seu marido agora chamava de ofício.
Passavam-se alguns dias e Bentinho estava preocupado. Procurando emprego, olhando os classificados. Foi quando recebeu uma ligação de seu tio.
- Olá Tio Cosme.
- Bento, meu filho. Sua mãe está a sua procura. Acreditas, tu, que o louco do José Dias a fez jogar no jogo do bicho?
- Aquele safado fez isso? Eu vou fazer jus a meu pai. Irei agora mesmo a minha casa conversar com ele, homem a homem. Minha mãe, mulher tão devota. Sempre me ensinou que jogo é coisa do capeta. Que não se deve jogar. Esse dinheiro todo é sujo.
- Meu filho, pare de falar asneiras. Sua mãe ganhou. Está rica, muito rica.
- Mas isso é verdade? Até mais ver tio. Tenho que me vestir. Irei visitar minha querida mãe e meu enteado.
Capitu não entendeu nada da conversa, e ficou sem entender até que Bentinho retornasse. Ele chegou desconfiado, com um pacote entre o braço e a axila, trajava um terno totalmente azul escuro, sapatos sociais e uma gravata. Ao ver Bento nesses trajes passou a entender menos ainda o que estava acontecendo. Pensou que Bentinho havia encontrado uma mulher mais velha, que o sustentasse. Que havia retornado à casa só para fazer chacota com aquela que se intitulava sua amada.
- Fale homem. O que aconteceu?
-Querida Capitu, estamos feitos na vida.
- Como assim? Fale logo.
- Mamãe ficou rica, fez uma aposta e ganhou.
- Mas sua mãe não é contra apostas? Ela não acha isso errado?
- Sim. Porém, junto de sua aposta ela fez uma promessa.
- Que diabo de promessa? Que embrulho é esse?
Bentinho riu, olhou-se no espelho, admirando sua nova vestimenta. Deu um breve sorriso, levantando a mão dizendo... paz do Senhor irmão. Capitu estava mais confusa ainda. Bentinho, ao ver a aflição de sua amada pôs-se a falar.
- Minha querida, este embrulho é uma bíblia. Minha mãe fez a promessa de que se ganhasse na aposta eu, seu único filho, teria a vida voltada à igreja.
Continuou a sorrir.
-Beata! Carola! Papa-missas!
-Calma. A idéia é de muito bom grado. Minha mãe agora é evangélica. Portanto, serei eu pastor. Por isso tais vestimentas. E os pastores têm esposas. Não precisaremos deixar de viver juntos.
- Eu ainda acho isso loucura.
-Quão ingênua és tu, pequena Capitu. Você não se informa das notícias? Ser pastor hoje em dia é um ótimo negócio. Nós podemos comprar algumas mansões e ter nossa própria emissora de televisão.