quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O adultério

Era uma noite bastante chuvosa. Seu carro acabara de quebrar. Ela estava sozinha e desprovida de qualquer tipo de proteção naquele lugar estranho. Catou sua capa de chuva e seu par de botas. Saiu do carro, caminhou, cautelosamente, procurando abrigo, ou alguém que pudesse ajudá-la. Caminhou por alguns minutos, até encontrar uma cabana, na qual havia uma única luz acesa. Aproximou-se com o ímpeto de pedir abrigo, mesmo que fosse a um desconhecido. Ficou durante alguns segundos diante da porta fechada, tomando chuva, pensando se bateria ou não naquele pedaço de madeira que a impedia de observar o que se passava na parte de dentro da cabana.
Hesitou, tentando dar de costas e ir embora, quando ouviu a chave dar uma volta e meia na fechadura da porta. Apareceu a sua frente um homem robusto, barbudo, alto e bem agasalhado. Você precisa de abrigo, perguntou o homem. Ela hesitou mais uma vez. Olhou para um lado, logo após para o outro. Não havia nada a fazer a não ser aceitar a proposta daquele desconhecido homem.  Adentrou a cabana bastante desconfiada e insegura. O homem, silenciosamente, trancou a porta, tirou a chave do trinco, guardando-a no bolso de seu casado e pôs-se a frente de sua hospede, observou-a, por alguns segundos, não conseguindo balbuciar uma só palavra. Desistindo da conversa, que chegou ao término antes mesmo da palavra inicial, dirigiu-se ao banheiro, preparou um banho com água morna para sua visitante. Voltou à sala, e dessa vez, tomando coragem, dirigiu-lhe a palavra. Preparei um banho para você, aproveite-o e troque essas roupas, antes que pegue um resfriado, disse ele. A mulher deu um sorriso à meia boca e saiu rumo ao banheiro.
Cerca de trinta minutos depois a mulher saiu envolta em uma minúscula toalha, cabelos soltos e pés descalços. Não tenho roupas enxutas, disse ela. O homem misterioso levantou-se rapidamente, ficou, novamente, por alguns segundos defronte a ela, aquela mulher que surgira do nada, misteriosamente, da qual não perguntou sequer o nome, pois se encontrava bastante nervoso, observou sua beleza incomum. Deu um último passo para frente. Ficaram tão perto  que ela teve um leve susto. Olho-a nos olhos, ficou por alguns segundos parado, apenas trocando olhares e sentindo sua respiração, agora acelerada. Beijaram-se ardentemente, sem trocar palavra alguma, sentiram queimar, naquela noite fria e chuvosa, o fogo da paixão. A toalha na qual ela estava envolta caiu ao chão, sua minúscula toalha já não conseguia separar aqueles dois corpos, que por um motivo repentino e desconhecido, já não podiam mais ficar separados.
Ele tirou, apressadamente, seus sapatos e todas suas vestimentas. Jogou-a sobre sua cama e fez dela sua mulher a noite inteira, entre gemidos e juras de amor. Quando já amanhecia eles encontravam-se fadigados e finalmente dormiram: abraçados, pelados, aquecendo um ao outro com seus corpos.
Quando despertou, o homem estava com frio e solitário em sua cama. Antes mesmo de levantar-se viu um bilhete de sua enamorada no criado-mudo, e já sabia, antes mesmo de ler, do que se tratava aquele pedaço de papel. Sabia acabara de ser abandonado, depois de uma longa noite de paixão ardente. Tudo aquilo, que foi tão belo e verdadeiro, agora ficava em sua lembrança e em sua carne marcada.

Um comentário:

  1. Essa é uma parada complicada...Não creio que ele tinha paixão suficiente pela namorada para arder tanto nos braços de outra...então...aguentar as consequências...Mas a vida não se limita a fogo...Tem brasa...Pedra...Pal...Quem é que vai ficar do teu lado nessas horas?

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