quinta-feira, 26 de maio de 2011

Relembranças

- Não chore minha querida. Nós ainda vamos nos encontrar e viver pelo resto de nossas vidas esse nosso amor. Se nós nos amamos, não há distância que nos separe.
- Isso é muito bonito, mas não serve para a vida real. Você vai embora, eu vou ficar aqui. Nós não vamos mais saber nada um do outro.
- Se cada vez que você lembrar-se de mim e eu de você, e escorrer uma lágrima de nossos rostos pela saudade, é por que nós ainda estamos juntos, mesmo longe, nós ainda estaremos juntos.
- Isso é bobagem. O tempo há de dilacerar nossos corações e nossas lembranças.
- O verdadeiro amor permanecerá, até ficarmos juntos novamente.
Dando-lhe um beijo na testa ele partiu sem olhar para trás, para não tornar aquela despedida mais difícil ainda. Ela ficou a olhar-lhe, vendo apenas seus passos e seu corpo cada vez mais distante. Não pôde ver o quanto ele chorava e se lamentava de tal fardo que teria de carregar ao abandonar sua amada. O parque no qual se passava a cena era o lugar deles, onde eles passaram seus melhores e piores momentos juntos, os de paixão e raiva, amor e desilusão.
Sua família estava de mudança para um estado ou dois de distância. Ambos acabaram de concluir o ensino médio e tinham planos de fazer faculdade juntos, mas o futuro deles agora era outro. Teriam de se separar e deixar para trás os planos que fizeram juntos. Ela ficara, começara a faculdade lá mesmo, onde sempre morou e ele foi-se embora com sua família, contra sua vontade, porém com a consciência de que isso tinha de ser feito.
Durante anos eles afundaram-se nos estudos, não saíram muito de casa. Era como se tivessem prometido um para o outro continuar sozinhos de onde eles tinham parado. Ambos formaram-se jovens e tornaram-se, rapidamente, respeitados em suas áreas de trabalho. Cerca de doze anos depois o rapaz, agora homem formado viajara de volta à sua cidade, a convite do governo, que queria sua ajuda profissional. Ele saiu de casa, despediu-se de todos. Sua família agora não era mais formada por seus pais e irmãos. Dirigiu-se ao aeroporto e deu início a sua viagem. No avião lembrava com doçura de sua juventude e de sua paixão vivida com a moça.
Ao desembarcar no aeroporto ainda era muito cedo parar dirigir-se ao local da reunião. Decidiu ir ao parque, na hora em que eles costumavam se encontrar. Às cinco da tarde, para ver o pôr do sol. Ao chegar ao parque ele tirou o paletó, sentou-se em um dos bancos e ficou a pensar na vida. De longe avistou uma mulher de idade semelhante à sua, bonita e sorridente. Pensou ser sua amada, mas, segundos depois, viu uma criança correndo para os braços da mulher abraçando-a. Um pouco depois sentiu sua visão escurecer. Alguém punha as mãos em seus olhos, a princípio pensou que fosse assalto, mas depois percebeu que aquelas mão eram mais de anjo que de marginal.
- Adivinha quem é. Falou uma voz delicada.
- Até tenho um palpite, mas tenho medo de quebrar a cara.
- Você continua o mesmo. Com medo de arriscar.
- É realmente quem eu imaginava.
Os dois viraram-se ao encontro um do outro. Sorriram, ficaram olhando detalhadamente durante segundos um para o outro tentando observar todas as mudanças trazidas pelo tempo. Mas não conseguiram ver mudança nenhuma, a não ser a idade. Os rostos não eram exatamente os mesmos, mas tinham a mesma doçura de anos atrás, os olhos não eram os mesmos, mas tinham a mesma paixão de anos atrás.
- Como você está querida? Está feliz?
- Tenho tentado. A minha vida está muito boa. E você?
- Também. Não tenho muito do que reclamar.
Conversaram durante alguns minutos, abraçaram-se como amigos, beijaram-se com carinho. Mas pela paixão trazida com aquele reencontro era inevitável o desejo de ambos. Beijaram-se ardentemente. Então, lembraram-se de um local no parque onde ninguém jamais ia. Que só eles dois conheciam e passavam lá a maior parte do tempo juntos. Correram para o tal lugar. Amaram-se o resto da tarde até o cair da noite. Depois de ótimos momentos pararam um pouco para conversarem sobre suas vidas.
- Então, conte-me, o que você tem feito da vida?
-Eu sou engenheiro. Sabe aquele novo estádio de futebol, que está sendo mostrado em todos os telejornais?Eu o projetei.
- Meus parabéns. Eu nunca duvidei da sua paixão pela engenharia.
- E você, o que tem feito?
- Virei advogada. Sabe o caso daquele terrorista, que todos pensavam que não teria penitência, mas ele foi condenado à cadeira elétrica? Eu era a advogada do caso.
- Parabéns. Eu nunca duvidei da sua competência.
Ambos estavam felizes ao ver que os sonhos que eles haviam planejado juntos haviam se tornado realidade, mesmo eles não estando juntos durante aqueles anos. Mas havia uma pergunta que eles queriam fazem um ao outro, mas um nó em suas gargantas os impediram. Foi quando ele olhou para a mão esquerda dela e falou assustado e com um semblante triste.
- E essa aliança? Casou-se?
Ela pôs em sua face, também, um semblante de tristeza.
- Sim, casei.
- Tem filhos?
- Tenho. Dois.
- Os filhos são realmente uma dádiva. E seu marido, você o ama?
- Ele é uma ótima pessoa. Muito esforçado e dedicado à família.
- Que ótimo.
-Eu também vejo em sua mão uma aliança. Quem é a sortuda?
- Antiga colega de faculdade. Ela também é uma pessoa e tanto.
- Você a ama?
- Ela é uma ótima pessoa e uma grande companheira.
- Vocês têm filhos?
- Sim. Dois também.
Eles ficaram por instantes olhando para um lado e outro, sem saber o que dizer. Até que no mesmo momento ambos disseram.
- Você o ama?
- Você a ama?
Isso tornou a situação mais difícil ainda de lidar. Enquanto se recompunham eles pensavam em todos os momentos vividos, inclusive naquele dia. Ela olhou para ele chorando e falou.
- Você disse que se nós nos amassemos ainda íamos nos encontrar. Ficaríamos juntos.
- E nós nos encontramos, nós passamos o dia mais feliz de nossas vidas hoje, nesse parque, que sempre foi nosso lugar. Disse ele, também chorando.
- E agora, o que a gente faz? Como a gente fica? E a nossa felicidade?
- Agora nós vamos ter de voltar às nossas vidas normais, para as pessoas que nos amam, que não podem viver sem nossa presença. Voltar à vida real.
-Mas eu te amo e sei que você também me ama.
- Claro querida. Nós nos amamos muito. Você é a mulher da minha vida.
- E então? O que faremos?
- Vamos embora. Voltemos a nossas vidas. Se nós realmente nos amarmos vamos ficar juntos no futuro. Encontraremo-nos novamente, assim como hoje.
 Dando-lhe um beijo na testa ele partiu. E mais uma vez ela chorou vendo apenas os passos e o corpo de seu amado cada vez mais distante. Não pôde ver o quanto ele também chorava e sentia o quanto era difícil deixar, mais uma vez, o amor da sua vida para trás.

No batuque de um forró, chorou meu coração

Segunda passada estava eu e um grupo de amigos viajando a uma cidade vizinha. Estava tudo traquilo, conversávamos descontraidamente sobre assuntos de nosso cotidiano. Falávamos sobre jogos, garotas e sobre a própria viagem. Em um segundo de silêncio, no qual permanecemos sem nada a tratar, sem o que ser dito, o sistema de som do carro é acionado e eu, logo eu, vejo-me obrigado a ouvir em um som extremamente alto, o que hoje se chama de forró, o forró que outrora foi levado aos quatro cantos por belos representantes nordestinos, elevando a cultura regional, agarrados a sanfonas que mais pareciam chorar de tanto sentimento. Luiz Gonzaga hoje é o mais antiquado dos homens, os verdadeiros cantores de forró usam tênis de mola e bonés com estampas de seus patrocinadores. Os homens do forró não são mais filhos do Nordeste, são filhos da mídia.
Agora, no exato momento que o amigo ao lado liga o som, sinto uma dor, um desconforto, ouço atentamente o que o homem com o microfone em mãos fala, mas de bom nada consigo extrair, ligo-me ao som mais agudo, depois ao mais grave e me pego batendo o pé no ritmo pela banda tocado, ameaço um rebolado e outro. Segundos depois, um pouco assustado, volto à realidade e ao bom senso, volto a minha posição de crítico tentando cumprir seu papel social de indivíduo contra esses exemplos de falta de cultura. Afinal, que mal danado fizeram ao forró. Que mal danado fizeram à música.
É quase inevitável ter de recorrer a dvd´s ou a cd´s antigos para encontrar algo audível, produtivo, que faça bem a nossos ouvidos. Há certo tempo vejo na tevê um grupo de garotos que se veste de forma esquisita, que tem modos de agir meio afeminados e dizem coisas meio bobas em suas apresentações. Um deles, podendo julgar-se romântico, pois os românticos são outra espécie em extinção, relata sua paixão em uma letra de sua “música”- aposto um beijo que você me quer- nenhum pouco atraente. Mas para as menininhas só isso basta.
Chego a pensar, em dado momento, que essas pessoas fazem isso como forma de protesto. Pois toda geração precisa de algo para protestar, caso contrário só nos restaria o comodismo.  Então, por alguns instantes a parte sensata de mim diz que esses garotos não são idiotas, não vestem suas calças de cor verde limão por seguirem uma nova tendência ou moda, que eles não seguem um padrão, nem formam um padrão, para que seus fãs se vistam e pensem como eles. Pensem? Pensar! Isso sim está se tornando cada vez mais difícil.
Então, em alguns momentos chego a sentir o sabor da felicidade por essa geração, pela geração da qual faço parte- felizmente ou infelizmente- e me pego pensando que esses garotos, com cara de retardados e jeito de criança, apesar dos vinte e poucos anos, são grandes pregadores de peças, são fãs de Chico Anysio, que levaram seu humor para a música. Fazem chacota de tudo e de todos, não levam nada a sério e o castigo deles é pousar como ridículos. Afinal todo revolucionário tem sempre uma causa pela qual lutar e abrir mão de tudo, inclusive do bom senso, como pode ser o caso desses rapazes.
O inevitável volta à tona e penso que podem eles ser realmente isso que a princípio eu havia pensado. Que podem esses garotos não estarem fazendo piada, e sim serem eles próprios a piada, piada de uma nação sedenta de cultura e bons exemplos. Além de piada eles são como os culpados- sim, culpados- por existirem tantos jovens que se vestem e agem como palhaços. O protesto da juventude, que antes ocorria em praças públicas, em universidades, todos sujos e de caras pintadas, hoje ocorre via internet (xinguemos no twitter o artista que não nos der atenção). Sites de relacionamentos servem como ponto de encontro de jovens descontentes com seus artistas favoritos. Artista? Eis uma palavra que foi banalizada no nosso polêmico século XXI.
O que nos resta amigos é rendermo-nos ao que se está fazendo ao país, à cultura, a juventude, a população. Irei me esforçar um pouco ao tentar agir como esses jovens. De início farei um teste de adaptação. Colocarei meu nariz de palhaço e desfilarei pelas ruas da cidade, como se tudo estivesse em ordem. 

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O nascimento de um poeta


Talvez eu tenha nascido do ócio
Minha mãe, numa noite bela
Chamou meu pai para se divertirem
Beberam, brindaram
Sorriram, se amaram
Os ventos traziam a  dona cegonha

Que passava apressada
E cheia de encomendas
Escolheram-me a dedo
Banharam-me a ouro
levei vida de rei
sou tido como tesouro

fui criança, brinquei, sorri
fui adulto, me apaixonei, chorei
a velhice anda tão longe
ainda não se anuncia
a morte, futuro de todos nós
ainda não me veio à cabeça

escrevo estes derradeiros versos pensando
E se não fosse aquela noite
E se não fosse aquele gozo(apaixonado)
E se a cegonha não tivesse vindo
Estaria eu aqui
Brincando de ser poeta?

sábado, 23 de outubro de 2010

O TEMPO

Tempo de brincar
De amar, de ser feliz
Tempo de correr
De pular, coçar o nariz
Foi-se o tempo na rajada
No estrondo do trovão

Passa tempo, devagar
Por que voltar não volta não
Todo tempo que passou
Foi ficando para trás
O momento eternizou
E eu fiquei pedindo mais

Passa tempo
Tempo hora
Passa tempo, no relógio
Já está raiando o dia
Um dia eu era criança
Noutro minha barba já crescia

Tic tac
Tempo hora
Tic tac
Ora tempo
Eu pedi que tu ficasse
Tu foste embora com o vento

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O adultério

Era uma noite bastante chuvosa. Seu carro acabara de quebrar. Ela estava sozinha e desprovida de qualquer tipo de proteção naquele lugar estranho. Catou sua capa de chuva e seu par de botas. Saiu do carro, caminhou, cautelosamente, procurando abrigo, ou alguém que pudesse ajudá-la. Caminhou por alguns minutos, até encontrar uma cabana, na qual havia uma única luz acesa. Aproximou-se com o ímpeto de pedir abrigo, mesmo que fosse a um desconhecido. Ficou durante alguns segundos diante da porta fechada, tomando chuva, pensando se bateria ou não naquele pedaço de madeira que a impedia de observar o que se passava na parte de dentro da cabana.
Hesitou, tentando dar de costas e ir embora, quando ouviu a chave dar uma volta e meia na fechadura da porta. Apareceu a sua frente um homem robusto, barbudo, alto e bem agasalhado. Você precisa de abrigo, perguntou o homem. Ela hesitou mais uma vez. Olhou para um lado, logo após para o outro. Não havia nada a fazer a não ser aceitar a proposta daquele desconhecido homem.  Adentrou a cabana bastante desconfiada e insegura. O homem, silenciosamente, trancou a porta, tirou a chave do trinco, guardando-a no bolso de seu casado e pôs-se a frente de sua hospede, observou-a, por alguns segundos, não conseguindo balbuciar uma só palavra. Desistindo da conversa, que chegou ao término antes mesmo da palavra inicial, dirigiu-se ao banheiro, preparou um banho com água morna para sua visitante. Voltou à sala, e dessa vez, tomando coragem, dirigiu-lhe a palavra. Preparei um banho para você, aproveite-o e troque essas roupas, antes que pegue um resfriado, disse ele. A mulher deu um sorriso à meia boca e saiu rumo ao banheiro.
Cerca de trinta minutos depois a mulher saiu envolta em uma minúscula toalha, cabelos soltos e pés descalços. Não tenho roupas enxutas, disse ela. O homem misterioso levantou-se rapidamente, ficou, novamente, por alguns segundos defronte a ela, aquela mulher que surgira do nada, misteriosamente, da qual não perguntou sequer o nome, pois se encontrava bastante nervoso, observou sua beleza incomum. Deu um último passo para frente. Ficaram tão perto  que ela teve um leve susto. Olho-a nos olhos, ficou por alguns segundos parado, apenas trocando olhares e sentindo sua respiração, agora acelerada. Beijaram-se ardentemente, sem trocar palavra alguma, sentiram queimar, naquela noite fria e chuvosa, o fogo da paixão. A toalha na qual ela estava envolta caiu ao chão, sua minúscula toalha já não conseguia separar aqueles dois corpos, que por um motivo repentino e desconhecido, já não podiam mais ficar separados.
Ele tirou, apressadamente, seus sapatos e todas suas vestimentas. Jogou-a sobre sua cama e fez dela sua mulher a noite inteira, entre gemidos e juras de amor. Quando já amanhecia eles encontravam-se fadigados e finalmente dormiram: abraçados, pelados, aquecendo um ao outro com seus corpos.
Quando despertou, o homem estava com frio e solitário em sua cama. Antes mesmo de levantar-se viu um bilhete de sua enamorada no criado-mudo, e já sabia, antes mesmo de ler, do que se tratava aquele pedaço de papel. Sabia acabara de ser abandonado, depois de uma longa noite de paixão ardente. Tudo aquilo, que foi tão belo e verdadeiro, agora ficava em sua lembrança e em sua carne marcada.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Vida Doce



"Vida doce
Freneticamente rotineira
Não há tempo de viver
Não há tempo de amar
Não há tempo de provar
  A vida doce que me espera"

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O bibliotecário

O relógio da grande catedral acabara de badalar a sexta vez. Eram exatamente seis da tarde, e o crepúsculo, tardio levava o resto de luz que ainda havia na cidade. Os pássaros que cantavam agora voam se debatendo, dando lugar ao silêncio e aos mendigos, que já se ajeitam, com seus papelões e suas garrafas de cachaça, para uma longa noite de frio.



Em frente à bela catedral havia uma antiga biblioteca, onde trabalhava um velho bibliotecário.
Seu rosto era velho, não só pelo tempo, mas por toda a amargura que o acompanhava, naquele olhar semimorto de quem já não espera mais nada da vida há muito tempo.
Frank; era assim que se chamava, tinha 90 anos, e apesar da idade ainda trabalhava todos os dias, durante os últimos 50 anos, na antiga biblioteca pública da cidade. Agora Frank estava conferindo e organizando alguns livros, para poder fechar a biblioteca, que como de costume, estava vazia, tomada por um silêncio devastador. Então, empilhou os livros, apagou as luzes, dirigiu-se a e trancou os cadeados. Saiu em direção a sua casa, com um livro grande e empoeirado debaixo do braço. Frank já não via muita diferença de estar em casa ou na biblioteca. Seus únicos companheiros eram os livros e todas as aventuras que eles o proporcionavam em seu imaginário. Sem exagero algum posso afirmar que os livros eram a única coisa que fazia Frank levantar da cama e seguir mais um dia de vida. Ele não tinha amigos, esposa, nem filhos, portanto não tinha com quem conversar sobre o livro que ele estava lendo ou acabara de ler. Então, se acostumou à rotina de ler um livro seguido do outro, sem pausa.
Era uma noite de quinta-feira e Frank já estava lendo o sexto livro daquela semana. Ele estava extremamente fascinado pela literatura de Gabriel García Marquez, colombiano. Talvez pelo escritor possuir aproximadamente a mesma idade que ele e a mesma paixão pelos livros. Provavelmente Gabo era tudo aquilo que Frank nunca foi. Ele até chegou a publicar algumas crônicas no jornal da cidade, mas o editor-chefe não suportou colocar tanta tristeza em suas folhas de jornal, logo mais na edição dominical, que é o dia no qual as pessoas ficam mais tristes. Então Frank se encontrou forçado a guardar toda sua amargura e literatura para si mesmo. Quando foi demitido do jornal estava lendo “Memórias póstumas de Brás Cubas” e escreveu uma crônica baseada neste livro. Do qual tirou a frase: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico, com saudosa lembrança, estas memórias póstumas”. Pode-se então considerar uma demissão um tanto quanto justa.
Semanalmente, antes de ir para casa ele passava na escadaria da catedral e dava alguns trocados a um mendigo. Era sempre o mesmo. O figura, como todo mundo, não ia com a cara de Frank, mas era grato ao velho, pelas moedas e sempre tentava conversar com ele. E o time de Porangabuçu velho pastorador de livros, perguntava o mendigo. Não vai lá tão bem, respondia Frank. Para ele o futebol havia acabado em 1994, quando seu time havia conquistado seu maior feito: Vice campeão da Copa do Brasil. Então, ele ia embora sem se despedir.
Quando completou 92 anos Frank já não era mais o mesmo. Teve que comprar uma bengala e se proteger do sol. Andava devagar e tossia bastante, apesar de ter largado o cigarro ainda na juventude. Seu médico não lhe dera boas notícias. Em suas contas o velho bibliotecário aquentaria mais um ou dois anos, se tivesse sorte. Os dias foram passando e Frank sentia cada vez mais o peso do tempo. Foi quando passou a visitar a biblioteca apenas três vezes na semana. A esmola ao mendigo foi transferida da terça-feira para a quinta-feira O mesmo não podia reclamar por aquele agrado semanal ter mudado de data.
Semanas depois do laudo médico Frank foi visto sorridente e cantarolando pelas ruelas próximas da catedral, voltando para casa depois de um dia de trabalho. Todos pensavam que ele estava louco ou coisa do gênero, mas não deu tempo do velho Frank dar qualquer tipo de explicação aos fofoqueiros.
Numa madrugada chuvosa ele foi encontrado defronte à porta principal da biblioteca, deitado ao chão. Seu coração já não mais batia. Com ele foram encontrados dois objetos. Na mão esquerda as chaves da biblioteca, na direita, junto ao peito, um livro pequeno e, apesar da chuva, dava pra sentir o seu cheiro de novo. O livro era “O pequeno príncipe” de Antoine de Saint-Exupery. Dentro do livro havia um bilhete. “Após toda uma vida dedicada á literatura, só aos 94 pude perceber a felicidade que uma obra simples e amável poderia me proporcionar. Logo eu que passei a vida inteira dedicada ao mundo da fantasia literária. Quando percebi quão poderia ser simples e leve, a vida, vive vivi em dois meses uma vida toda.