Segunda passada estava eu e um grupo de amigos viajando a uma cidade vizinha. Estava tudo traquilo, conversávamos descontraidamente sobre assuntos de nosso cotidiano. Falávamos sobre jogos, garotas e sobre a própria viagem. Em um segundo de silêncio, no qual permanecemos sem nada a tratar, sem o que ser dito, o sistema de som do carro é acionado e eu, logo eu, vejo-me obrigado a ouvir em um som extremamente alto, o que hoje se chama de forró, o forró que outrora foi levado aos quatro cantos por belos representantes nordestinos, elevando a cultura regional, agarrados a sanfonas que mais pareciam chorar de tanto sentimento. Luiz Gonzaga hoje é o mais antiquado dos homens, os verdadeiros cantores de forró usam tênis de mola e bonés com estampas de seus patrocinadores. Os homens do forró não são mais filhos do Nordeste, são filhos da mídia.
Agora, no exato momento que o amigo ao lado liga o som, sinto uma dor, um desconforto, ouço atentamente o que o homem com o microfone em mãos fala, mas de bom nada consigo extrair, ligo-me ao som mais agudo, depois ao mais grave e me pego batendo o pé no ritmo pela banda tocado, ameaço um rebolado e outro. Segundos depois, um pouco assustado, volto à realidade e ao bom senso, volto a minha posição de crítico tentando cumprir seu papel social de indivíduo contra esses exemplos de falta de cultura. Afinal, que mal danado fizeram ao forró. Que mal danado fizeram à música.
É quase inevitável ter de recorrer a dvd´s ou a cd´s antigos para encontrar algo audível, produtivo, que faça bem a nossos ouvidos. Há certo tempo vejo na tevê um grupo de garotos que se veste de forma esquisita, que tem modos de agir meio afeminados e dizem coisas meio bobas em suas apresentações. Um deles, podendo julgar-se romântico, pois os românticos são outra espécie em extinção, relata sua paixão em uma letra de sua “música”- aposto um beijo que você me quer- nenhum pouco atraente. Mas para as menininhas só isso basta.
Chego a pensar, em dado momento, que essas pessoas fazem isso como forma de protesto. Pois toda geração precisa de algo para protestar, caso contrário só nos restaria o comodismo. Então, por alguns instantes a parte sensata de mim diz que esses garotos não são idiotas, não vestem suas calças de cor verde limão por seguirem uma nova tendência ou moda, que eles não seguem um padrão, nem formam um padrão, para que seus fãs se vistam e pensem como eles. Pensem? Pensar! Isso sim está se tornando cada vez mais difícil.
Então, em alguns momentos chego a sentir o sabor da felicidade por essa geração, pela geração da qual faço parte- felizmente ou infelizmente- e me pego pensando que esses garotos, com cara de retardados e jeito de criança, apesar dos vinte e poucos anos, são grandes pregadores de peças, são fãs de Chico Anysio, que levaram seu humor para a música. Fazem chacota de tudo e de todos, não levam nada a sério e o castigo deles é pousar como ridículos. Afinal todo revolucionário tem sempre uma causa pela qual lutar e abrir mão de tudo, inclusive do bom senso, como pode ser o caso desses rapazes.
O inevitável volta à tona e penso que podem eles ser realmente isso que a princípio eu havia pensado. Que podem esses garotos não estarem fazendo piada, e sim serem eles próprios a piada, piada de uma nação sedenta de cultura e bons exemplos. Além de piada eles são como os culpados- sim, culpados- por existirem tantos jovens que se vestem e agem como palhaços. O protesto da juventude, que antes ocorria em praças públicas, em universidades, todos sujos e de caras pintadas, hoje ocorre via internet (xinguemos no twitter o artista que não nos der atenção). Sites de relacionamentos servem como ponto de encontro de jovens descontentes com seus artistas favoritos. Artista? Eis uma palavra que foi banalizada no nosso polêmico século XXI.
O que nos resta amigos é rendermo-nos ao que se está fazendo ao país, à cultura, a juventude, a população. Irei me esforçar um pouco ao tentar agir como esses jovens. De início farei um teste de adaptação. Colocarei meu nariz de palhaço e desfilarei pelas ruas da cidade, como se tudo estivesse em ordem.
Eu realmente não entendo. Um dos seus melhores posts e nenhum comentário? ' A cultura aqui é uma criança e ninguém notou o abandono'. É caro colega...creio que você notou...sou de outro meio, do meio do rap, um dos elementos da cultura hip-hop, que comercialmente é chamado de black ou de hip-hop, mas a cultura hip-hop possui 5 tentáculos, elementos, e o 5º é o conhecimento, um deles é o mc representando o rap. E esse rap comercial que a gente vê por ai...O famoso pimp style...Eminem está no meio também, desculpás...Estilo cafetão...sexo,drogas e carros...é uma lavagem cerebral doentia...como considero o forró eletrônico daqui de Fortaleza também. Aliás, um evento cômico irá acontecer: um show do 50-cent em Fortaleza: a migração dos playboys do forró cearense para o rap pimp americano. Fico pensando as garotas rebolando com as letras ' Tenho putas em todos os lugares e elas só querem saber de dinheiro' e dizendo que o negócio da letra não está se referindo a ela...E...temos muito a conversar sobre isso.
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