quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O bibliotecário

O relógio da grande catedral acabara de badalar a sexta vez. Eram exatamente seis da tarde, e o crepúsculo, tardio levava o resto de luz que ainda havia na cidade. Os pássaros que cantavam agora voam se debatendo, dando lugar ao silêncio e aos mendigos, que já se ajeitam, com seus papelões e suas garrafas de cachaça, para uma longa noite de frio.



Em frente à bela catedral havia uma antiga biblioteca, onde trabalhava um velho bibliotecário.
Seu rosto era velho, não só pelo tempo, mas por toda a amargura que o acompanhava, naquele olhar semimorto de quem já não espera mais nada da vida há muito tempo.
Frank; era assim que se chamava, tinha 90 anos, e apesar da idade ainda trabalhava todos os dias, durante os últimos 50 anos, na antiga biblioteca pública da cidade. Agora Frank estava conferindo e organizando alguns livros, para poder fechar a biblioteca, que como de costume, estava vazia, tomada por um silêncio devastador. Então, empilhou os livros, apagou as luzes, dirigiu-se a e trancou os cadeados. Saiu em direção a sua casa, com um livro grande e empoeirado debaixo do braço. Frank já não via muita diferença de estar em casa ou na biblioteca. Seus únicos companheiros eram os livros e todas as aventuras que eles o proporcionavam em seu imaginário. Sem exagero algum posso afirmar que os livros eram a única coisa que fazia Frank levantar da cama e seguir mais um dia de vida. Ele não tinha amigos, esposa, nem filhos, portanto não tinha com quem conversar sobre o livro que ele estava lendo ou acabara de ler. Então, se acostumou à rotina de ler um livro seguido do outro, sem pausa.
Era uma noite de quinta-feira e Frank já estava lendo o sexto livro daquela semana. Ele estava extremamente fascinado pela literatura de Gabriel García Marquez, colombiano. Talvez pelo escritor possuir aproximadamente a mesma idade que ele e a mesma paixão pelos livros. Provavelmente Gabo era tudo aquilo que Frank nunca foi. Ele até chegou a publicar algumas crônicas no jornal da cidade, mas o editor-chefe não suportou colocar tanta tristeza em suas folhas de jornal, logo mais na edição dominical, que é o dia no qual as pessoas ficam mais tristes. Então Frank se encontrou forçado a guardar toda sua amargura e literatura para si mesmo. Quando foi demitido do jornal estava lendo “Memórias póstumas de Brás Cubas” e escreveu uma crônica baseada neste livro. Do qual tirou a frase: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico, com saudosa lembrança, estas memórias póstumas”. Pode-se então considerar uma demissão um tanto quanto justa.
Semanalmente, antes de ir para casa ele passava na escadaria da catedral e dava alguns trocados a um mendigo. Era sempre o mesmo. O figura, como todo mundo, não ia com a cara de Frank, mas era grato ao velho, pelas moedas e sempre tentava conversar com ele. E o time de Porangabuçu velho pastorador de livros, perguntava o mendigo. Não vai lá tão bem, respondia Frank. Para ele o futebol havia acabado em 1994, quando seu time havia conquistado seu maior feito: Vice campeão da Copa do Brasil. Então, ele ia embora sem se despedir.
Quando completou 92 anos Frank já não era mais o mesmo. Teve que comprar uma bengala e se proteger do sol. Andava devagar e tossia bastante, apesar de ter largado o cigarro ainda na juventude. Seu médico não lhe dera boas notícias. Em suas contas o velho bibliotecário aquentaria mais um ou dois anos, se tivesse sorte. Os dias foram passando e Frank sentia cada vez mais o peso do tempo. Foi quando passou a visitar a biblioteca apenas três vezes na semana. A esmola ao mendigo foi transferida da terça-feira para a quinta-feira O mesmo não podia reclamar por aquele agrado semanal ter mudado de data.
Semanas depois do laudo médico Frank foi visto sorridente e cantarolando pelas ruelas próximas da catedral, voltando para casa depois de um dia de trabalho. Todos pensavam que ele estava louco ou coisa do gênero, mas não deu tempo do velho Frank dar qualquer tipo de explicação aos fofoqueiros.
Numa madrugada chuvosa ele foi encontrado defronte à porta principal da biblioteca, deitado ao chão. Seu coração já não mais batia. Com ele foram encontrados dois objetos. Na mão esquerda as chaves da biblioteca, na direita, junto ao peito, um livro pequeno e, apesar da chuva, dava pra sentir o seu cheiro de novo. O livro era “O pequeno príncipe” de Antoine de Saint-Exupery. Dentro do livro havia um bilhete. “Após toda uma vida dedicada á literatura, só aos 94 pude perceber a felicidade que uma obra simples e amável poderia me proporcionar. Logo eu que passei a vida inteira dedicada ao mundo da fantasia literária. Quando percebi quão poderia ser simples e leve, a vida, vive vivi em dois meses uma vida toda.

4 comentários:

  1. Eu chorei com esse texto! Como te disse, muito, MUUUUUUITO bom *-*

    ResponderExcluir
  2. achei que tava lendo um livro do stephen king no começo auheuheahuehue tava tensa já esperando ou o cujo ou o carro dele ser a christine ahuehueahuehu eu gostei do frank :)

    ResponderExcluir
  3. Muito bom. O sentido atemporal da vida. Só poderia ter ficado mais claro que onde ele trabalhava de início, mas, do ponto de vista da literatura ficou muito bom. Às vezes ter livros ou cachorros e gatos é melhor do que ter pessoas ao seu lado...

    ResponderExcluir