segunda-feira, 5 de julho de 2010
Relato de um ex-solitário
É mais um belo dia de domingo. Catei meu violão e fui passear. No parque, onde todas as pessoas são sorridentes e felizes, é onde passo a maior parte desse dia de descanso. Entre um acorde e outro paro para simplesmente observar: o casal de velhinhos, de cabeças alvas e uma ardente paixão, tão visível. As belas garotas andando de patins e tomando seus energéticos. Têm, elas, uma vida tão saudável, que chega a dar inveja. Nem canso a mente tentando lembrar a última vez que me encontrei em forma.
Dentre outras coisas vejo os pássaros, o pipoqueiro, o carrinho de picolé, a bola de futebol e o velho trio tocando sua dançante música com uma simplicidade e maestria tão encantadora. Por último, mas não menos importante vejo as famílias, cada uma tão diferente da outra, umas maiores, outras menores. A família, que é ao mesmo tempo algo tão confuso e prazeroso de se fazer parte. A convivência diária e divisão de tarefas e despesas. Depois de observar isso tudo é que lembro da minha solidão. Lembro que até alguns anos atrás eu estava fadado a vir a este mesmo parque, sentar perto da lagoa, acender um cigarro e fumá-lo, sem causa alguma, até ser repreendido pelo guardinha do parque, dizendo que aquele não era local para se fumar. Apagava meu cigarro, enxugava meus pés, calçava os sapatos e voltava a casa.
Mas isso já faz muito tempo, nem lembro direito como era essa tal de solidão, como era o sentimento de abandono. Quando dou por mim estou novamente no parque, com o meu violão. Ao lado ouço vozes, por trás recebo um cutucão que me faz pular e dar um sorriso.
Sinto o vento no meu resto e cabelo. Espero ele passar, então abro os olhos. Recebo novamente um cutucão, novamente passo a sorrir. O cachorro late e sai correndo, o garoto vai atrás, a pequena, mais novinha, corre atrás dos dois. Sinto alguém agarrar-se em meu pescoço, dá-me um beijo no canto da boca e dizer, como eu te amo.
Como é bom ter uma família.
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E quanto tempo não se desgastou pensando em estar sozinho, e quanto tempo se pensou na solidão massacrante de estar sozinho: só. Sem história, sem constituição...Família é sempre confundida com prisão...Quando na verdade é uma rede para se deitar...
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