sábado, 10 de julho de 2010

Carlitos


Carlitos era um grande médico. Nunca havia cometido um erro, sempre dava o melhor diagnóstico a seus pacientes e salvava, constantemente, muitas vidas. Ele era bastante respeitado e admirado por todas as pessoas que trabalhavam na área da medicina. Mas Por trás de todo o respeito e admiração existia um ser humano:
É mais um dia normal de trabalho. Carlitos veste seu jaleco, lava suas mãos e começa a atender seus pacientes. Sua primeira paciente é uma senhora de 86 anos.

Ela estava com uma baita dos nas costas desde a noite passada. O que aconteceu, perguntou Carlitos. Eu estava no baile do idoso ontem, dançando como nunca, meu filho, quando senti um estalo nas costas, respondeu sorridente, a velha mulher. A senhora acha que tem idade para esse tipo de estripulia, perguntou o médico, com cara de poucos amigos. Ora filho, eu posso parecer velha por fora, mas por dentro me sinto cada dia mais jovem, respondeu a velhinha, alargando ainda mais seu sorriso. O médico fez cara feia e a receitou apenas uma compressa de gelo e alguns dias de descanso.
No leito seguinte estava um jovem de físico atlético e corpo bronzeado. Ele possuía muitos hematomas pelo corpo e algumas costelas visivelmente fraturadas. Garoto, o que aconteceu com você, perguntou espantado, Carlitos. Eu estava surfando e apareceu uma onda perfeita. Eu a peguei e estava literalmente na crista da onda quando me descuidei um pouco e ela foi mais rápida do que eu, sacou, falou calmamente o jovem. O responsável médico meneou a cabeça e saiu sem falar nada. Do lado de fora do leito pediu para que a enfermeira encaminhasse o surfista para o setor onde ele pudesse pôr remédio e engessar as partes danificadas de seu corpo. Carlitos estava surpreso e indignado com as histórias de descaso daquelas pessoas que acabara de atender. Elas não se preocupavam com as possíveis conseqüências de seus atos. Agiam por impulso. As pessoas vivem cada vez mais de maneira errada. Sempre deixam a emoção sobrepor a razão, pensou o médico.
No leito seguinte foi onde ocorreu a maior surpresa para Carlitos. Ele chegou à porta e viu uma mulher, de aproximadamente 60 anos, com a cabeça inclinada e as mãos nos quadris. A cena chegou a ser engraçada, mas o médico era de um profissionalismo, que afetava até seu humor. O que houve com a senhora, perguntou-a. Meu filho, eu estava namorando, com meu marido ontem, ele tinha tomado aquele tal de Viagra e a coisa esquentou. O homem estava subindo pelas paredes. A gente passou a noite toda fazendo amor, parecíamos dois adolescentes..., disse a senhora. Eu não quero saber de sua vida particular, conte-me o que houve com seu pescoço, falou irredutível, Carlitos. Pois sim, deixe-me terminar seu bobo. Nós estávamos fazendo amor há horas e já não havia mais posição alguma, foi quando a gente tentou inovar, eu fui além dos meus limites e deu nisso. Meu velho, coitado, ainda não conseguiu levantar da cama. Falou, com ar de felicidade, a senhora. A senhora acha que isso é certo? Nós vamos ter que imobilizar seu pescoço. Tenha mais cuidado da próxima vez, disse o médico, e saiu, mais uma vez sem se despedir.
Assim foi seu dia, bem estressante. No fim da tarde havia um parto para ser realizado. O médico que deveria realizá-lo não pôde comparecer, então chamaram o médico mais competente que se encontrava no hospital: Carlitos. Ele quis não aceitar, mas colocou seu profissionalismo em primeiro lugar. Não conversou com a mulher grávida, nem com nenhum familiar da mesma. Foi às pressas para a sala de parto e fez o que tinha que fazer. O parto foi complicado, mas no final tudo terminou bem. O médico tirou o bebê do útero da mãe, deu-lhe três palmadas, então a criança chorou. Quando pegou seu filho nos braços a mãe também chorou. Os familiares, que assistiam ao parto, por fora da sala, choraram muito, de alegria. As enfermeiras se sensibilizaram com aquela cena e não se contiveram, sorriram, olhando umas para as outras e choraram. O único que não sorriu, não se emocionou, não chorou foi o Dr. Carlitos. Ele saiu da sala, tirou suas luvas, pôs as mãos na cabeça e assistindo àquela cena. Quando deu por si estava pensando em toda aquela emoção e nas aventuras vividas por todos seus pacientes. Foi quando escorreu de seu olho a primeira lágrima.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Relato de um ex-solitário


É mais um belo dia de domingo. Catei meu violão e fui passear. No parque, onde todas as pessoas são sorridentes e felizes, é onde passo a maior parte desse dia de descanso. Entre um acorde e outro paro para simplesmente observar: o casal de velhinhos, de cabeças alvas e uma ardente paixão, tão visível. As belas garotas andando de patins e tomando seus energéticos. Têm, elas, uma vida tão saudável, que chega a dar inveja. Nem canso a mente tentando lembrar a última vez que me encontrei em forma.

Dentre outras coisas vejo os pássaros, o pipoqueiro, o carrinho de picolé, a bola de futebol e o velho trio tocando sua dançante música com uma simplicidade e maestria tão encantadora. Por último, mas não menos importante vejo as famílias, cada uma tão diferente da outra, umas maiores, outras menores. A família, que é ao mesmo tempo algo tão confuso e prazeroso de se fazer parte. A convivência diária e divisão de tarefas e despesas. Depois de observar isso tudo é que lembro da minha solidão. Lembro que até alguns anos atrás eu estava fadado a vir a este mesmo parque, sentar perto da lagoa, acender um cigarro e fumá-lo, sem causa alguma, até ser repreendido pelo guardinha do parque, dizendo que aquele não era local para se fumar. Apagava meu cigarro, enxugava meus pés, calçava os sapatos e voltava a casa.

Mas isso já faz muito tempo, nem lembro direito como era essa tal de solidão, como era o sentimento de abandono. Quando dou por mim estou novamente no parque, com o meu violão. Ao lado ouço vozes, por trás recebo um cutucão que me faz pular e dar um sorriso.

Sinto o vento no meu resto e cabelo. Espero ele passar, então abro os olhos. Recebo novamente um cutucão, novamente passo a sorrir. O cachorro late e sai correndo, o garoto vai atrás, a pequena, mais novinha, corre atrás dos dois. Sinto alguém agarrar-se em meu pescoço, dá-me um beijo no canto da boca e dizer, como eu te amo.

Como é bom ter uma família.